Onze anos da chacina de Osasco e Barueri

Onze anos podem parecer um tempo considerável para que feridas comecem a cicatrizar ou memórias se desvaneçam no turbilhão de notícias diárias. Contudo, para as mães das vítimas da chacina de Osasco e Barueri, cada dia é uma lembrança pungente da perda e da incessante luta por justiça. A participação dessas mulheres em um ato-debate na Unifesp não é um mero ritual de luto, mas um grito que ecoa nas entranhas de uma sociedade que teima em esquecer suas tragédias mais sombrias.

Por que essa chacina, e tantas outras, ainda ressoa com tamanha força em nossa consciência coletiva? A resposta reside na sua natureza perversa: a violência não veio de uma força externa, mas de dentro das próprias instituições que deveriam zelar pela segurança e pela vida. Quando a farda que deveria proteger se torna o instrumento da barbárie, a confiança social é irremediavelmente abalada. Não estamos falando de casos isolados, mas de uma falha sistêmica que corrói os alicerces do Estado de Direito.

O que isso muda na vida do cidadão comum? Muda tudo. Para o morador das periferias, a cada sirene, a cada patrulha que passa, a sensação de segurança é substituída pelo medo, pela incerteza. A fronteira entre o justo e o arbitrário torna-se fluida, e a vida, um bem inalienável, passa a ter valor distinto dependendo do CEP ou da cor da pele. Essa realidade gera uma desconfiança generalizada nas forças de segurança e no próprio sistema judiciário, que muitas vezes se mostra lento e ineficaz na punição dos culpados.

As consequências a longo prazo são devastadoras. A impunidade, quando prevalece, serve como um motor para a repetição da violência. Ela envia uma mensagem silenciosa, porém poderosa, de que certas vidas importam menos e que a responsabilização é um privilégio, não um direito. A luta dessas mães, portanto, transcende a dor pessoal; ela se torna um bastião contra a normalização da barbárie, um clamor pela preservação da memória como ferramenta indispensável para a construção de um futuro mais justo.

Nós, como sociedade, somos compelidos a refletir: estamos dispostos a continuar assistindo a essas feridas se abrirem, ano após ano, sem exigir mudanças profundas? A memória dos mortos em Osasco e Barueri, e o incansável ativismo de suas mães, são um convite perene à nossa responsabilidade coletiva. É uma afirmação da vida que nasce da negação mais brutal dela, uma semente de esperança plantada no solo árido da injustiça. O ato na Unifesp não é apenas sobre o passado, mas sobre o presente e o futuro que queremos construir para todos os cidadãos.

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