
A imagem de mães nas periferias empreendendo enquanto equilibram a responsabilidade do cuidado de seus filhos não deveria ser um testemunho de resiliência, mas sim um doloroso lembrete da persistente falha estrutural de nossa sociedade. Quando celebramos a "força" dessas mulheres, corremos o risco de glamorizar uma realidade que é, na verdade, a ponta de um iceberg de carências e omissões do Estado e do mercado. É um cenário onde a ausência de direitos e de políticas públicas adequadas se transforma em um fardo individual intransferível, empurrando milhões para uma batalha diária pela subsistência e pela dignidade.
Mas, afinal, por que chegamos a este ponto? A resposta não é simplista. Nós vemos a convergência de diversas falhas: a precarização do trabalho formal que expulsa muitos para a informalidade, a crónica escassez de infraestrutura de cuidado infantil – como creches e escolas de tempo integral – nas regiões periféricas, e uma cultura que ainda naturaliza o cuidado como uma tarefa exclusivamente feminina. As mães, especialmente as que vivem em comunidades marginalizadas, são as primeiras a sentir o impacto dessa desorganização social, sendo forçadas a escolher entre sua autonomia econômica e o bem-estar de seus filhos.
O que isso muda na vida do cidadão comum? Para essas mulheres, a jornada é exaustiva. Imagine tentar gerir um pequeno negócio, produzir, vender, lidar com clientes, enquanto simultaneamente alimenta, educa e zela pela segurança de uma criança, muitas vezes em ambientes sem as condições mínimas de apoio. Isso não apenas limita o potencial de crescimento de seus empreendimentos, mas compromete sua saúde física e mental. Para os filhos, a falta de acesso a um ambiente de cuidado e educação adequado nos primeiros anos pode significar um atraso no desenvolvimento e a perpetuação de um ciclo de desigualdade.
A longo prazo, as consequências são ainda mais preocupantes. A invisibilização do trabalho de cuidado e a sobrecarga imposta às mães periféricas representam uma sangria silenciosa de potencial humano e econômico. Nós perdemos inovação, talentos e a capacidade de construir uma sociedade mais equitativa. A "resiliência" forçada hoje pode se traduzir em menos mobilidade social para as próximas gerações, maior dependência de programas assistenciais, e um sistema de saúde sobrecarregado por doenças relacionadas ao estresse e à privação. É um custo que toda a sociedade paga, ainda que de forma dissimulada, pela falta de investimento em políticas de cuidado e inclusão.
Minha perspectiva é clara: não podemos mais nos dar ao luxo de celebrar o heroísmo individual como substituto para a responsabilidade coletiva. É imperativo que governos, setor privado e sociedade civil se unam para construir um ecossistema de apoio que desonere as mães do peso desproporcional do cuidado. Isso significa investir maciçamente em creches e escolas públicas de qualidade, expandir o acesso a programas de renda e capacitação que permitam o desenvolvimento de negócios sustentáveis, e, fundamentalmente, reconhecer o trabalho de cuidado como um pilar essencial para o desenvolvimento social e econômico. Somente assim poderemos construir uma sociedade onde a prosperidade não seja um privilégio para poucos, mas uma realidade acessível a todos, independentemente do gênero ou do CEP.
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