
Suponho que ante a escalada da violência nas universidades públicas brasileiras, fervilha um questionamento: por que determinados grupos humanos se sentem autorizados a perpetrar aquilo que chamo aqui de “coesão violenta”?
A universidade, em sua essência, deveria ser um santuário do pensamento crítico, do debate plural e da busca incessante pelo conhecimento. No entanto, a realidade recente em diversas instituições públicas tem nos mostrado um cenário perturbador, onde a indignação, em vez de catalisar o diálogo e a construção de soluções, transborda em atos de justiçamento e agressão. É um paradoxo cruel: espaços dedicados à razão tornam-se palcos da irracionalidade coletiva.
Aprofundando-nos na questão, perguntamo-nos: por que essa transformação da indignação em violência? Creio que a resposta reside em uma complexa teia de fatores sociais e psicológicos. Vivemos tempos de polarização acentuada, onde a capacidade de escuta e a tolerância ao contraditório parecem ter sido substituídas por uma urgência em impor narrativas e punir desvios percebidos. O zeitgeist digital, com sua velocidade e ausência de filtros, amplifica a raiva e solidifica identidades de grupo, criando bolhas onde a violência contra o “outro” pode ser rapidamente validada e até incentivada.
Para o cidadão comum, e em especial para os estudantes e docentes que habitam esses espaços, o impacto é devastador. A liberdade acadêmica, um pilar fundamental da educação superior, é posta em xeque. O medo de expressar opiniões dissidentes ou de engajar em debates complexos paralisa o ambiente intelectual. As universidades, que deveriam formar mentes críticas e independentes, correm o risco de se tornarem ambientes de conformidade forçada, onde a autocensura vira estratégia de sobrevivência.
As consequências a longo prazo são ainda mais sombrias. Se a lógica do justiçamento prevalecer, minamos a própria base do estado democrático de direito. As instituições de ensino, ao falharem em proteger seus membros da violência interna, perdem credibilidade e autoridade moral. A espiral de intolerância pode levar a uma fuga de cérebros, ao desinteresse por carreiras acadêmicas e, em última instância, ao empobrecimento intelectual e cultural de nossa nação.
É crucial que nós, como sociedade, reflitamos sobre a origem dessa "coesão violenta". Ela pode ser um sintoma da descrença nas instituições formais de justiça, da impunidade percebida ou de um sentimento generalizado de impotência diante de problemas estruturais. No entanto, ceder à tentação do justiçamento é pavimentar um caminho perigoso, onde cada um se torna juiz e carrasco, destruindo qualquer chance de construção coletiva e de verdadeira resolução de conflitos. Precisamos urgentemente resgatar a capacidade de dialogar, de discordar sem agredir, e de reafirmar a universidade como um espaço de civilidade e respeito.
A tarefa é árdua, mas imperativa: transformar a indignação legítima em um motor para a mudança construtiva, e não em combustível para a violência que desagrega e aniquila o espírito acadêmico.
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