Quando a política se transforma em fé

Andamos, nós, pela vida observando os contornos, as linhas que separam o que é de César e o que é de Deus. Há um tempo, talvez nem tão distante, essas fronteiras pareciam mais nítidas, gravadas com tinta indelével na pedra de uma república laica. Hoje, porém, ao virar a esquina de qualquer notícia, percebemos que a tinta desbotou, a pedra rachou e o que antes era um limite sagrado, agora é uma névoa densa que paira sobre o nosso cotidiano.

O que se vê é a política, que devia ser o exercício da razão e do debate de ideias, transformando-se em palco para sermões, profecias e apelos a uma fé que, antes de unir, muitas vezes segrega. Não é mais apenas a moralidade a guiar certas decisões, mas sim um dogma imposto, revestido de urgência divina, que silencia vozes dissonantes e impede a construção de pontes em nome de muros invisíveis.

É como se a bússola cívica estivesse em pane, apontando para todas as direções, exceto para o Norte da equidade e da pluralidade. Quando o púlpito invade o palanque, e o templo se confunde com o congresso, o espaço para o diálogo laico encolhe, e a própria democracia parece dar sinais de cansaço, ou, pior, de uma perigosa resignação ante a fusão do sagrado e do profano.

Nós, os cidadãos que habitamos esta terra de pluralidades, somos postos diante de um dilema crescente. Devemos votar em crenças ou em propostas? Distinguir o político do pregador, o programa de governo da promessa celestial, tornou-se um exercício quase acrobático, exigindo um discernimento que nem sempre é fácil de manter em meio a tanto fervor.

E assim, pouco a pouco, a secura dos artigos constitucionais parece ceder à umidade de discursos passionais, onde a lógica é substituída pela convicção inabalável. É um novo tipo de teocracia em gestação silenciosa, uma que não se declara abertamente, mas que permeia as decisões, as leis e, finalmente, a vida de cada um de nós, sem que se perceba o quão tênue se tornou a linha entre a fé e o poder.

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