Campina Grande promete temporada histórica do Maior São João do Mundo

O ar de Campina Grande carrega, neste mês de junho, uma eletricidade peculiar. Não é apenas o xote ou o arrasta-pé que dita o compasso dos corações, mas a expectativa de um encontro entre tradições ancestrais e o horizonte pop. Ao caminhar pelo Parque do Povo, percebo que a cidade não se contenta mais em ser apenas a guardiã do forró; ela se expande, abraça Marisa Monte e Roberto Carlos, num gesto de mise-en-scène que atesta a sua grandiosidade. É a prova de que a cultura nordestina, em sua imensa generosidade, sabe ser o solo fértil onde novos ritmos criam raízes sem jamais comprometer a identidade que nos define.

O cheiro de milho assado paira sobre as barracas, enquanto o som da sanfona se mistura aos burburinhos dos preparativos de gente como Dona Francilda, a Fia. Observo a sua agitação, o rigor no arranjo do quiosque, a esperança de que o suor de meses se transforme em sucesso. Para ela e para tantos outros, o evento é o pulso da economia e da vida, um tempo suspenso onde o trabalho vira celebração. Há uma poesia silenciosa na rotina desses comerciantes que, entre um pedido e outro, veem a cidade se transformar em um imenso palco a céu aberto.

A novidade que se impõe este ano, contudo, é a partilha de emoções entre o forró e a bola. Ao instalar telões para a Copa do Mundo Masculina, o Parque do Povo assume um caráter de praça pública global. O torcedor brasileiro, com seu manto verde e amarelo, agora divide o mesmo espaço com o forrozeiro de carteirinha, criando uma atmosfera híbrida e fascinante. Essa é a verdadeira face da brasilidade, que consegue harmonizar o grito do gol com o acorde de uma sanfona, provando que, aqui, a celebração é uma linguagem única que ignora fronteiras ou gêneros musicais.

Observar Glória Borges e sua visão conciliadora sobre o evento me faz refletir sobre a resistência da memória. Preservar o forró, o nosso lifestyle sertanejo, não significa erguer muros, mas sim abrir janelas. Campina Grande, neste mês, não apenas respira cultura; ela a reinventa a cada amanhecer, entre a fumaça das fogueiras e a vibração dos telões. Estamos diante de uma temporada que se pretende histórica não apenas pelo cartaz de artistas ou pela infraestrutura, mas por essa capacidade quase mágica de manter viva a chama do passado enquanto mira, destemida, no que virá.

Postar um comentário

0 Comentários