Governo do MT prossegue projeto de aniquilação de pescadores artesanais

Olho para o rio, imagino os barcos atracados, as redes secando ao sol que agora parece esquecer os pescadores. Três anos se passaram desde que a Lei do Transporte Zero fincou suas raízes em Mato Grosso, uma proibição que, ironicamente, parece ter lançado muitos à margem. O governo, através do governador Mauro Mendes, celebra o crescimento do turismo, enquanto eu me pergunto: a que custo? A que preço se mede o progresso?

Fico pensando na matemática cruel dessa equação. De um lado, a promessa de um paraíso intocado, de rios cheios para o deleite dos que vêm de fora, movendo a engrenagem do lazer. Do outro, famílias que aprenderam a ler o rio antes de ler o alfabeto, cujas mãos calejadas conhecem o peso de uma rede cheia e agora sentem o vazio, a fome que aperta a cada dia.

Não há estudo científico robusto, dizem. A OAB-MT, pela voz do seu presidente Flávio Ferreira, e o Observatório Socioambiental, apontam para a falta de embasamento. O Ministério Público Federal, inclusive, está de olho, investigando os impactos socioeconômicos. É como se a vida de milhares fosse um experimento burocrático, sem a devida análise dos efeitos colaterais.

Lembro-me dos números: mais de 16 mil pescadores profissionais no estado em 2020. Desses, cerca de 10 mil viviam exclusivamente da pesca em 2023. De repente, a vida lhes é arrancada, não por uma cheia inesperada ou um período de seca, mas por um decreto. O rio, antes sustento, vira paisagem intocável, e para muitos, inalcançável.

Vi histórias de pescadores se tornando fiscais, trocando a liberdade do barco pela rigidez de um uniforme, vigiando o mesmo rio que antes lhes era pão. Outros, endividados, sem perspectiva, migram para cidades grandes ou se entregam a bicos incertos. A transição não é de ofício, mas de dignidade. A pesca de subsistência e a esportiva, claro, são permitidas, mas como se vive de pesque-e-solte quando a barriga ronca?

A Lei 12.197/2023 é um marco, sim, mas um marco que divide águas. De um lado, o brilho das propagandas turísticas, os hotéis lotados, os barcos de luxo. Do outro, a penumbra das casas simples, onde o choro da criança se mistura ao silêncio da rede vazia. É um contraste gritante que me faz questionar qual é a real medida de riqueza de um estado.

Talvez, no afã de proteger o peixe, tenhamos nos esquecido de proteger o pescador. Ou, quem sabe, para o olhar de certos planejadores, o pescador artesanal já não se encaixe na paisagem idílica de um Mato Grosso voltado ao turismo. Uma pena. O rio, afinal, é feito de água, mas também de gente, de história, de uma cultura que agora corre o risco de virar lenda.

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