Eu me lembro bem de quando a frase, quase um mantra, ecoava em rodas de conversa e até em sermões dominicais: "crente não se mete em política". Era um tempo, não tão distante, em que a fé parecia se resguardar dos labirintos do poder secular, numa espécie de autoidentificação que delimitava fronteiras. Os fiéis, em sua maioria, priorizavam o reino dos céus, deixando as querelas terrenas para outros palanques.

Mas os calendários, teimosos que são, avançam, e com eles, as paisagens sociais se redesenham. O que era um dito popular, uma máxima quase inquestionável, hoje soa como uma relíquia de um passado distante. Observamos agora, em pleno 2026, que a frase não só perdeu seu sentido, como se inverteu por completo em seu significado.

Celebramos, ou pelo menos notamos, os 120 anos do pentecostalismo no Brasil, e com essa longevidade, veio uma força que poucos previram em sua dimensão atual. Aqueles templos modestos, muitas vezes em bairros periféricos, expandiram-se não só em números de adeptos, mas em influência e capilaridade política, transformando a dinâmica do jogo eleitoral.

Nós vemos essa ascensão em cada canto: nos corredores do Congresso Nacional, nas prefeituras, nas câmaras de vereadores. A representação evangélica não é mais um nicho, mas um bloco articulado, com voz ativa e poder de barganha. Os púlpitos, antes focados apenas na salvação, agora ecoam também pautas legislativas, sociais e, claro, eleitorais.

A ingenuidade de pensar que fé e política poderiam operar em esferas completamente distintas esbarrou na realidade da sociedade brasileira, sempre tão permeável às interconexões entre sagrado e profano. A presença evangélica reconfigurou o tabuleiro político, injetando novos valores e agendas no debate público, para o bem ou para o mal, a depender do ponto de vista de quem observa.

O antigo "crente não se mete em política", hoje, poderia ser reescrito com uma dose de ironia: "o político que não se mete com os crentes é que não se mete mais na política". É um fato inegável que a base evangélica tornou-se um eleitorado cobiçado, estratégico e, acima de tudo, atuante, moldando os contornos da nossa democracia de maneiras antes impensáveis.

Essa metamorfose não aconteceu da noite para o dia, mas é o resultado de uma trajetória de crescimento e organização que alcança seu ápice neste século. A fé, para milhões, transcendeu o espaço do altar e se manifesta agora nas urnas, nas discussões parlamentares e na formação de políticas públicas, mostrando que o sagrado e o secular, no Brasil, são dois lados da mesma moeda.