Em São Paulo, a quinta edição da Feira do Livro segue até domingo no cenário peculiar da Praça Charles Miller, onde o concreto do Pacaembu se transforma, por poucos dias, em um território inteiramente dedicado à palavra. Caminhar entre os estandes é perceber que a literatura, longe de ser um exercício solitário de gabinete, é um evento de massas, um respiro coletivo que teima em ocupar o espaço urbano sob a égide da gratuidade e do encontro.
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Ao observar a curadoria deste ano, sinto que a feira se assume como um espelho de nossas inquietações. Quando o diretor-geral Paulo Werneck aponta para o vigor da literatura latino-americana, ele não apenas destaca nomes como Pilar Quintana, mas reafirma uma identidade que muitas vezes negligenciamos em favor de tradições distantes. É a América Latina ocupando o centro do debate, com suas feridas históricas, sua paixão pelo futebol e sua capacidade inesgotável de narrar o próprio território.
A experiência de folhear um livro em meio ao ruído da cidade ganha contornos de resistência, especialmente quando vemos o esforço dos livreiros independentes pelo Mapa das Livrarias de Rua. Existe uma urgência em manter viva a cartografia da cultura nos bairros, um contraponto necessário ao algoritmo que hoje dita o que devemos ler, comprar ou desejar. A presença de veteranos como Ana Maria Machado ao lado de novos talentos cria um diálogo geracional que é, por definição, o combustível da renovação intelectual.
A infância, frequentemente sequestrada pelo brilho frio das telas, encontra nas vozes de Madu Costa e outros autores um ancoradouro seguro. A delicadeza de Trança a trança serve como um lembrete de que a ancestralidade não é uma peça de museu, mas um fio que se tece no cotidiano, entre o toque da avó e a curiosidade da criança, construindo um tratado de identidade que o tempo não deve apagar.
Por fim, a feira não se omite diante do caos do mundo real. Ao trazer Norman Finkelstein para discutir a tragédia palestina e convocar reflexões sobre a digitalização da vida, o festival cumpre seu papel de ágora. Em tempos de discursos truncados e polarizações, sentar para ouvir, debater e confrontar ideias sobre o futuro parece ser o ato mais subversivo e necessário que um cidadão pode realizar diante do livro aberto.
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