A política, em sua essência, deveria ser o terreno fértil para o debate e a construção de caminhos comuns, mas, ao observar os números da última década, percebo que ela se transformou, para muitas, em um campo minado. Entre 2015 e 2025, a marca de 71 mandatos femininos cassados ou sob ameaça real de perda revela uma engrenagem que opera nas sombras das 19 unidades federativas do país. Não se trata de uma coincidência estatística, mas de um sintoma de um tempo em que a ocupação do espaço público por mulheres passou a incomodar estruturas que, há muito, sentiam-se confortáveis apenas com a hegemonia masculina.

Olho para os dados e percebo que o marco zero dessa contabilidade perversa não é gratuito. A trajetória das cassações ganhou um impulso alarmante a partir de 2019, coincidindo com um período de forte polarização e ascensão de discursos que, sob o verniz de uma suposta ordem, miravam diretamente aquelas que ousavam romper o silêncio das câmaras municipais e estaduais. O recorde de 30 episódios de ataques registrado apenas no último ano evidencia que a violência institucional não é um resquício do passado, mas uma arma refinada do presente político.

São, sobretudo, as vereadoras as sentinelas de uma linha de frente que sofre as investidas mais diretas, representando quase três quartos das vítimas. Quando vemos que sete em cada dez dessas mulheres atacadas ocupam o legislativo municipal, entendemos que o alvo é o poder capilarizado, aquele que toca o cotidiano das cidades. Essa perseguição é o que o feminismo, com precisão cirúrgica, denomina de backlash, uma reação organizada, quase instintiva, daqueles que tentam frear os avanços que as mulheres conquistaram a duras penas na última década.

Não há como dissociar a origem desses ataques das trincheiras ideológicas em que se encontram. A análise revela que as parlamentares ligadas a partidos do campo progressista, especialmente o PT e o PSOL, são as que mais frequentemente sentem o peso dessa tentativa de deslegitimação. Do outro lado, encontramos, em 70% dos casos, um bloco conservador que se articula, muitas vezes conduzido por homens cisgênero, em uma demonstração clara de que o gênero, aliado à agenda política, tornou-se um fator de risco para o exercício do mandato.

Ao refletir sobre essa assimetria, fica claro que as cassações não são meros processos burocráticos ou punições por erros regimentais. Elas são, na verdade, ferramentas de hostilidade político-ideológica desenhadas para punir a renovação geracional e a dissidência. Quando uma mulher é alçada ao posto de alvo, o que se questiona não é o seu desempenho, mas o seu próprio direito de estar ali, ocupando uma tribuna. É um lembrete amargo de que, embora as urnas concedam a legitimidade do voto, os corredores do poder ainda reservam, para muitas, a armadilha do exílio político.