Vinte anos não são apenas uma medida de tempo no calendário; são uma medida de silêncio imposto àqueles que ainda buscam por respostas nas calçadas de um maio que nunca terminou. Quando olhamos para trás, para aquele 2006 de rebeliões e o barulho de sirenes que cortavam a noite paulistana, percebemos que o rastro deixado por mais de quinhentas vidas interrompidas tornou-se um espectro que assombra a democracia. O reconhecimento da ONU, ao tratar o episódio como uma ferida aberta que ignora qualquer prescrição, devolve ao debate público a urgência da verdade que o Estado teimou em esconder sob o tapete da burocracia institucional.
Caminhar pelas memórias das Mães de Maio é percorrer um labirinto onde a justiça parece sempre dobrar a esquina, mas nunca se revela. Há algo de profundamente cruel em ver uma nação que prefere o esquecimento à reparação, tratando corpos negros e periféricos como notas de rodapé de uma história de violência que se pretendia enterrar. Status quo é o nome que damos à paralisia das corregedorias enquanto a memória das vítimas insiste em clamar por algo que transcende a nota técnica emitida por secretarias de segurança que, invariavelmente, repetem o mantra da investigação individualizada.
A denúncia levada às instâncias internacionais pela Conectas Direitos Humanos é o retrato de um país que precisa que vozes de fora apontem o óbvio para que, talvez, possamos refletir sobre o peso do nosso próprio racismo sistêmico. Não se trata de uma conta aritmética de mortos, mas de uma falha moral coletiva que insiste em se perpetuar. Enquanto o Estado se refugia em justificativas processuais e prazos que não se aplicam à dignidade humana, a sociedade assiste a uma dança simbólica, onde o Tribunal Popular tenta, com a força da verdade, fazer aquilo que os fóruns oficiais ainda devem à história.
Ao final de duas décadas, a palavra que ecoa não é apenas impunidade, mas a teimosa resistência daqueles que não permitem que o luto seja transformado em silêncio. A exigência por padrões internacionais, como o Protocolo de Minnesota, não é um mero protocolo burocrático, mas uma tentativa de resgatar a humanidade de quem foi, em um maio longínquo, descartado como um erro de percurso. A justiça, se um dia chegar, não será apenas sobre punir nomes, mas sobre estancar, finalmente, o ciclo de sangue que mancha a nossa construção como país.
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