São Paulo é uma cidade que se alimenta de concreto e de multidões, mas, neste junho de 2026, as ruas sentem o peso de um silêncio inesperado em um de seus pontos mais vibrantes. A notícia de que a Marcha do Orgulho Trans não encontrará seu caminho habitual pelo centro da capital não é apenas uma nota de cancelamento, mas um sintoma de um tempo em que as cores do ativismo começam a perder o brilho das grandes marcas. Quando o Instituto SSEX BBOX anuncia sua retirada, percebo que não estamos diante de um fim, mas de uma décalage entre a utopia da visibilidade e a crueza do mercado.
É curioso notar como as engrenagens que movem o ativismo dependem, muitas vezes, de um mainstream corporativo que hoje prefere o recolhimento. Lyon Adryan Ror aponta para os efeitos distantes das urnas norte-americanas, lembrando-nos de que a política não conhece fronteiras quando o assunto é o fluxo do capital. A fragilidade das pautas sociais, quando dependentes de benesses externas, torna-se evidente no momento em que as prioridades desses grandes investidores mudam ao sabor dos ventos políticos globais, deixando desamparadas as estruturas que antes sustentavam o grito de resistência nas avenidas.
O impacto dessa escassez não é exclusividade de um evento, pois até a Parada do Orgulho LGBT+, gigante de três décadas, caminha com passos mais curtos este ano. Nelson Matias Pereira, à frente da associação organizadora, fala sobre uma redução drástica que obriga o movimento a se reinventar ou, pelo menos, a sobreviver de forma improvisada. O anúncio de artistas que abrem mão de cachês soa como um gesto de nobreza, mas carrega também o travo amargo da necessidade; é a arte fazendo o papel que o orçamento das empresas decidiu abandonar.
Resta-nos a reflexão sobre o significado da ocupação das ruas quando o patrocínio escasseia. O tema deste ano, que evoca a urna e a convocação popular, parece um lembrete urgente de que a cidadania não deve estar atrelada apenas a um calendário comercial de visibilidade. Quando a máquina do consumo se retrai, a política precisa redescobrir sua autonomia, provando que a sobrevivência de um movimento não deveria ser medida pela quantidade de marcas estampadas em um trio elétrico, mas pela resiliência daqueles que insistem em existir, mesmo quando as luzes dos grandes palcos se apagam.
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