Tradução de “O futebol ‘é’ uma linguagem com os seus poetas e prosadores”, de Pasolini

Olho para a bola rolando em qualquer campinho e vejo mais do que um esporte. Vejo a trama intrincada de uma nação, a pulsação de uma cultura que, para muitos de nós, é quase umbilicalmente ligada ao futebol. Não é apenas um jogo, é um dialeto que se fala nas ruas, nos bares, nos almoços de domingo e nas celebrações coletivas.

Pasolini, o poeta e cineasta italiano, disse com a sabedoria de um observador perspicaz que "o futebol ‘é’ uma linguagem com os seus poetas e prosadores". E ele estava certo. Ele não precisava ser brasileiro para entender essa universalidade, essa capacidade do esporte de transcender barreiras e se instalar no âmago da identidade de um povo.

Aqui, essa linguagem ganha contornos próprios, um sotaque inconfundível. Vemos os dribles como versos livres, os passes como a prosa que conecta ideias, e os gols como a exclamação máxima, o ápice da narrativa que se desenrola nos noventa minutos de um confronto. É um conto épico recontado a cada rodada.

O campo se torna palco para dramas e glórias, onde anônimos se transformam em heróis por um dia e a coletividade respira em uníssono. É um fato social inegável, que molda a nossa percepção de mundo, de pertencimento, e até mesmo de como nos relacionamos uns com os outros, para o bem e para o mal.

E a tradução desse pensamento de Pasolini, chegando até nós, serve como um lembrete oportuno. De que, por mais que tentemos racionalizar, o futebol no Brasil não é só lazer. É uma forma de expressão, um espelho das nossas paixões, das nossas angústias e, principalmente, da nossa inesgotável capacidade de sonhar, juntos, por um gol que nos faça gritar em coro, como os mais belos versos de uma canção popular.

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