Vorcaro, Cosimo e a verdadeira virtú de Maquiavel

O caso Master, em sua essência mais nua, serve como um espelho incômodo para uma das mais antigas e persistentes mazelas da sociedade brasileira: a ideia de que o poder, em última instância, reside nas mãos de quem detém os recursos. A frase de Raymundo Faoro, evocando um Brasil onde "como ninguém tem, quem tem manda em todo mundo", não é apenas uma descrição histórica, mas uma profecia que teima em se cumprir diante de nossos olhos, reafirmando um ciclo vicioso de privilégios e submissão.

Nós, enquanto sociedade, testemunhamos a cada novo episódio de destaque, como o citado, a manifestação clara de um Estado patrimonialista, onde a distinção entre o público e o privado é frequentemente borrada pela influência do capital. Faoro dissecou com maestria a figura dos "donos do poder", aqueles que, por força de seu acúmulo financeiro ou social, conseguem moldar as regras do jogo, desviando o curso da justiça e da equidade para servir a seus próprios interesses. Essa é uma engrenagem que opera nas sombras, mas cujas consequências são sentidas à luz do dia por milhões de cidadãos.

Em um cenário assim, a verdadeira virtù, no sentido maquiavélico de eficácia e capacidade de ação para atingir objetivos, não se manifesta na construção de um bem comum, mas na astúcia em manobrar o sistema em benefício próprio. Não se trata de valor moral, mas da habilidade fria e calculista de exercer influência, de contornar obstáculos legais e de assegurar impunidade, garantindo que o status quo seja mantido e que a hierarquia de poder permaneça inalterada, independentemente das demandas por justiça social ou transparência.

Para o cidadão comum, o impacto é devastador. A cada nova revelação, a confiança nas instituições se esvai um pouco mais. A sensação de que a lei não é igual para todos, de que existem castas acima do escrutínio e da responsabilidade, corrói o tecido social. O que muda em nossa vida é a desesperança sutil, a crença de que nosso voto, nosso protesto ou nossa busca por direitos são meros adornos em um palco onde os atores principais já têm seus papéis definidos e seus destinos traçados por outros, mais poderosos.

As consequências a longo prazo são sombrias para a democracia e o desenvolvimento sustentável. Uma sociedade onde a meritocracia é uma ilusão e a justiça é seletiva, perde sua capacidade de inovar, de crescer de forma inclusiva e de garantir bem-estar a todos. Estamos condenados a repetir os erros do passado se não confrontarmos essa estrutura que permite que "quem tem" continue a ditar os rumos de "quem não tem", perpetuando uma desigualdade que é tanto econômica quanto existencial.

É imperativo que paremos de normalizar essa dinâmica. A análise crítica de casos como o Master deve nos impulsionar a exigir reformas profundas, a fortalecer as instituições fiscalizadoras e a cultivar uma cultura de responsabilidade e ética que transcenda o poder econômico. Somente assim poderemos aspirar a um Brasil onde a virtù seja um motor de progresso coletivo, e não uma ferramenta para a perpetuação de poucos. O desafio é gigantesco, mas a inação seria o maior dos fracassos.

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