No interior paulista, as cidades crescem como negócio – e para poucos

O boom imobiliário no interior paulista, especialmente em cidades como São José do Rio Preto, é um fenômeno que merece nossa atenção mais crítica. Enquanto as construtoras erguem novos empreendimentos a perder de vista, a narrativa que se desenha não é a de um progresso inclusivo, mas sim de um crescimento que marginaliza a maior parte da população. É um espelho da lógica que tem dominado o planejamento urbano em muitas regiões do Brasil, onde a expansão da cidade se confunde com a lógica do lucro fácil.

Por que essa expansão acontece de forma tão desequilibrada? A resposta reside, em grande parte, na visão da moradia como um mero produto de mercado, e não como um direito fundamental. A flexibilização de legislações urbanísticas, a valorização de terrenos em áreas estratégicas e a busca por taxas de retorno elevadas atraem investimentos que priorizam nichos de alta renda. O resultado é a construção em larga escala de residências que estão muito além do poder aquisitivo da maioria dos trabalhadores e famílias, criando um cenário de oferta abundante para quem tem muito, e escassez para quem tem pouco ou nada.

As consequências para o cidadão comum são diretas e devastadoras. Vemos o aumento da segregação socioespacial, onde os mais pobres são empurrados para as periferias distantes, sem acesso adequado a transporte público de qualidade, serviços de saúde, educação ou lazer. A tão sonhada casa própria, para muitos, transforma-se em um fardo financeiro insustentável ou em uma utopia inalcançável. A cidade se fragmenta, os laços comunitários se enfraquecem, e o que deveria ser um espaço de convivência e oportunidades torna-se um campo de batalha pela sobrevivência diária.

A longo prazo, essa abordagem gera cidades insustentáveis. O crescimento desordenado consome recursos naturais, aumenta a pegada de carbono com deslocamentos cada vez mais longos e sobrecarrega infraestruturas urbanas que não foram planejadas para tal ritmo ou distribuição. A especulação imobiliária, por sua vez, eleva os custos de vida para todos, dificultando a permanência de setores essenciais da força de trabalho – como professores, enfermeiros e pequenos comerciantes – nas regiões centrais e melhor servidas.

É imperativo que repensemos o papel dos gestores públicos neste cenário. Não basta apenas liberar alvarás de construção; é preciso planejar o crescimento urbano com uma lente social, garantindo que o desenvolvimento habitacional seja acompanhado de políticas de moradia acessível, de infraestrutura equitativa e de espaços públicos inclusivos. A cidade é de todos, e seu crescimento não pode ser refém de uma lógica que a transforma em um negócio exclusivo para poucos. O direito à moradia digna, garantido em nossa Constituição, deve ser a bússola que orienta cada tijolo e cada metro quadrado construído.

Precisamos de um novo pacto urbano, onde o desenvolvimento econômico e a justiça social caminhem lado a lado, e onde a expansão das cidades paulistas, e brasileiras, seja um sinônimo de prosperidade compartilhada, e não de desigualdade aprofundada. O desafio é grande, mas a omissão é um custo que nenhuma sociedade pode se dar ao luxo de pagar.

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