Muito além da loira fatal: mostra celebra 100 anos de Marilyn Monroe

No dia 1º de junho, um dos grandes ícones da era de ouro de Hollywood completaria 100 anos: a atriz estadunidense Marilyn Monroe. Para marcar a data, o Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo apresenta a “Mostra Marilyn Monroe 100 anos” com a exibição de doze filmes estrelados pela artista.

Olhar para Marilyn Monroe um século após seu nascimento é um exercício de desconstrução. A indústria do cinema, voraz e patriarcal, moldou a menina Norma Jeane para que ela se tornasse a loira fatal que o mundo desejava consumir, mas é nos detalhes dessa trajetória interrompida precocemente que encontramos a verdadeira mulher. O brilho de Hollywood muitas vezes serviu para ofuscar uma inteligência perspicaz que lutava por autonomia artística, um traço pouco explorado por quem preferia vê-la apenas como um ícone da cultura pop.

Ao percorrer a filmografia selecionada pelo curador André Sturm, somos convidados a abandonar o espelho da fama para enxergar o processo. A decisão de fundar sua própria produtora em 1954 foi um ato de rebeldia silenciosa, uma tentativa de recuperar o protagonismo em uma engrenagem que a queria apenas como um adereço fotogênico. Ela não era apenas a figura de vestido branco esvoaçante sobre o respiradouro do metrô, mas uma mulher que, mesmo em seus papéis mais leves, carregava a profundidade de quem conheceu a dor dos orfanatos e a solidão da vida pública.

É irônico e comovente que, hoje, possamos observar as imagens inéditas capturadas por Allan Grant em sua própria casa. Ali, longe das luzes dos estúdios, vemos a humana que existia por trás do mito. A mostra no MIS não celebra apenas uma estrela, mas busca resgatar a densidade de uma artista que, embora tenha tido sua existência reduzida à tragédia de uma despedida precoce, deixou uma marca indelével na resistência feminina dentro do sistema estelar do século passado.

Caminhar entre os fotogramas de O rio das almas perdidas ou as cenas dramáticas de Os desajustados é aceitar que o centenário de Marilyn é, acima de tudo, um convite para o reencontro. Ela foi, talvez, a primeira a compreender que ser um objeto de desejo é uma armadilha, e sua tentativa de escapar desse rótulo, mesmo que breve, é o que torna sua memória algo muito mais complexo do que o glamour absoluto que tentaram lhe imprimir.

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