A imagem que chega até nós pelas telas, de estudantes universitários utilizando descargas elétricas contra um homem em situação de rua em Belém, não é um evento isolado ou um desvio de conduta inexplicável. É, na verdade, a face mais crua de uma aporofobia que se enraizou profundamente no cotidiano das nossas cidades. Quando alguém é desumanizado ao ponto de se tornar um alvo de lazer, descobrimos o tamanho do abismo que separa a existência garantida daqueles que, por um cruel arranjo social, foram empurrados para as margens do concreto.
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Os dados revelados pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da Universidade Federal de Minas Gerais são um soco no estômago da nossa pretensa civilidade. Entre 2014 e 2023, contabilizaram-se 150 mil episódios de violência contra essa população, mas o professor André Luiz Freitas Dias nos lembra que vivemos sob uma subnotificação crônica. O que vemos nos sistemas de saúde é apenas a ponta do iceberg, enquanto o silêncio da maioria das vítimas atesta a desconfiança absoluta que elas guardam em relação às instituições que deveriam, por dever de ofício, protegê-las.
O perfil das vítimas é um espelho implacável das nossas desigualdades históricas: homens, jovens e, em sua esmagadora maioria, negros. O racismo estrutural não apenas coloca essas pessoas nas ruas, mas as mantém ali, expostas a agressões físicas recorrentes, negligência estatal e o abandono de um sistema que parece lidar com a pobreza como um crime a ser combatido com jatos de água ou expulsões forçadas. A violência não é um acidente de percurso; é um mecanismo de controle que reforça quem tem o direito à cidade e quem é tratado como um estorvo a ser varrido do mapa.
O que Robson César Correia de Mendonça, do Movimento Estadual da População em Situação de Rua de São Paulo, descreve como uma agressão cotidiana ganha contornos de tragédia quando percebemos que o Estado, por meio de suas ações de zeladoria, muitas vezes atua como o algoz. Quando o espaço público deixa de ser um lugar de convivência para se tornar uma zona de risco para a integridade física, estamos admitindo que falhamos como sociedade. Não se trata apenas de garantir um teto, mas de reverter uma lógica que entende a existência do outro como um erro a ser corrigido pela violência.
As estatísticas que apontam uma aceleração crítica desses casos em estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro deveriam servir como um alerta definitivo. O caminho para a superação desse cenário não passa por mais repressão ou policiamento, mas pela corajosa tarefa de substituir a criminalização da pobreza por uma rede de acolhimento e direitos fundamentais. Enquanto o país não entender que a dignidade não é um luxo, mas o alicerce mínimo da democracia, continuaremos assistindo, inertes, ao desenrolar dessa tragédia invisível sob o brilho artificial dos nossos postes e a indiferença dos nossos passos apressados.
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