25 artistas baianos se reuniram com um mesmo objetivo: resgatar a ancestralidade, a história e a memória do Centro Histórico e do Rio Vermelho, em Salvador. A partir daí, surgiu a mostra "Pelourinho: Ecos de Pedra, Mar e Encantaria do coração da cidade ao Rio Vermelho".
Caminhar pelas ladeiras do Pelourinho ou sentir a brisa que sopra no Rio Vermelho é, antes de tudo, um exercício de escuta silenciosa. Entre o casario antigo e o salitre que teima em corroer o tempo, esses vinte e cinco artistas encontraram não apenas vestígios urbanos, mas uma pulsação que se recusa a silenciar. Ao transpor essa energia para a Confraria das Ostras, eles não apenas expõem objetos, eles convidam o espectador a um rendez-vous com o invisível.
O que Uncas Celuque, Fred Sá, Gabriela Cruz, Pico Garcez, Vini Dendê e o Coletivo Fuerza Natura trouxeram para o espaço vai muito além da cerâmica ou da pintura. Sob a batuta curatorial de Tati Sampaio, o projeto Arte em Toda Parte transformou o recinto em um santuário de memórias. É fascinante observar como a matéria, sob as mãos desses criadores, consegue traduzir as heranças afrodiaspóricas que definem a alma da Bahia, mantendo viva a chama de uma história que muitos preferem reduzir a meros cartões-postais.
O conceito de encantaria, definido por Tati Sampaio como o elemento que transcende a matéria, é a chave para compreender o que repousa sobre as mesas e paredes da exposição. Não se trata apenas de pedra ou de tinta, mas de uma convocação espiritual. Ali, a ancestralidade não é um dado historiográfico enterrado em livros, mas um sopro, um mistério que nos olha de volta enquanto circulamos pela mostra, que segue aberta até o dia 4 de julho.
Ao sairmos do ambiente climatizado da exposição de volta para o frenesi do Rio Vermelho, a percepção do mundo ao redor parece ter mudado de cor. A cidade, com seus ecos e sua eterna contenda entre o novo e o arcaico, revela-se menos como um cenário e mais como um organismo vivo. A mostra é, em última análise, um lembrete urgente de que nossa identidade é feita do que permanece quando o olhar se desvia da superfície, encontrando no mar e nas pedras o verdadeiro pulso de quem somos.
0 Comentários