Caminhar pelos corredores do Centro Cultural Banco do Brasil, no centro do Rio de Janeiro, é sempre um exercício de memória, mas nestes dias o ar parece mais denso, impregnado pelo sal e pela poeira das estradas percorridas por Antônio Pitanga. Ao atravessar as portas para a mostra dedicada à sua trajetória, não encontro apenas um catálogo de filmes, mas um recorte vivo da nossa própria identidade, estampada no rosto de um homem que foi, e continua sendo, a própria encarnação do Cinema Novo. É fascinante observar como a tela grande, quando bem ocupada por uma figura de tanta densidade, deixa de ser apenas uma projeção luminosa para se tornar um espelho das nossas feridas e potências mais profundas.
Ao ver Sueli Voltarelli descrever o entusiasmo da curadoria ao encontrar esse projeto em um edital, percebo que não se trata apenas de uma homenagem protocolar, mas de uma urgência histórica. Estamos falando de alguém que dividiu o plano com os gigantes, que sobreviveu à passagem das décadas sem perder o brilho no olhar ou a urgência do discurso. Antônio Pitanga não é apenas um ator que atuou sob o comando de Glauber Rocha ou Cacá Diegues; ele é a ponte viva entre um Brasil que tentava se reconhecer nas lentes em preto e branco e a atualidade que precisa, mais do que nunca, revisitar esses clássicos restaurados em 4K para entender o seu presente.
Perco-me, entre um filme e outro, na vastidão dos trinta e nove títulos que compõem a seleção. De Barravento a O Pagador de Promessas, a sensação é de estar diante de um testamento, um tour de force que atravessa as desigualdades sociais que insistem em nos definir. A presença de Pitanga em cena sempre foi um grito de presença, uma afirmação de lugar em um país que, por muito tempo, tentou invisibilizar seus protagonistas. Hoje, vê-lo celebrado com o rigor de uma restauração técnica, mas com a alma intacta da sua atuação, é um convite para que as novas gerações entendam que a história do cinema brasileiro não é feita apenas de rolos de película, mas de corpos e vozes que se recusaram a sair de cena.
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