A história, quando vista de perto, raramente é um livro de contos de fadas. Ela se assemelha mais a um palimpsesto, onde camadas de silêncio tentam esconder o que a verdade, teimosa, insiste em revelar. Por décadas, o asfalto da Rodovia Presidente Dutra guardou um segredo que, para muitos, era apenas uma fatalidade do destino, uma crônica anunciada de um acidente banal. Mas o tempo tem o hábito peculiar de desmascarar as certezas forjadas em gabinetes sombrios.
Ao observarmos a decisão recente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, percebemos que o peso dos anos não serviu para apagar as marcas, mas para clarear a visão. O ex-presidente Juscelino Kubitschek, figura mítica de um Brasil que sonhava grande, teve seu destino interrompido não pelo acaso mecânico, mas por uma engenharia de poder que não tolerava vozes dissonantes. A conclusão de que o atentado foi uma operação política deliberada transforma a própria trajetória de JK em um testemunho tardio da brutalidade que, por tanto tempo, se vestiu de normalidade.
É um exercício melancólico, porém necessário, confrontar o mito da fatalidade com a crueza dos fatos que agora emergem dos arquivos. O choque que jamais existiu, o ônibus que nunca colidiu, tudo isso compõe o mise-en-scène de uma ditadura que precisava eliminar, no silêncio da estrada, o que não podia controlar nas urnas ou nos palanques. Retificar uma certidão de óbito não é apenas uma formalidade burocrática sob a égide da Resolução CNJ 601/2024; é um ato de restauração da memória coletiva que se recusa a ser escrita por carrascos.
Enquanto a poeira baixa sobre este relatório, sinto que o país finalmente encara um espelho que tentou quebrar durante meio século. A relatora Maria Cecília Adão e os integrantes do colegiado, ao validarem o que tantas comissões estaduais e municipais da verdade já apontavam, devolvem a Juscelino o seu lugar na história, não mais como uma vítima fortuita do tráfego, mas como um alvo direto de um Estado que se voltou contra seus próprios ideais. A verdade histórica é um caminho sem volta, e hoje ela nos ensina que a justiça, ainda que tardia, possui a precisão cirúrgica necessária para desmontar os cenários da mentira.
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