
Com publicação pela Telaranha Edições, Foi um jeito de derreter é o segundo livro da escritora, ilustradora e doutora em História Jéssica Stori. A obra é uma novela transdisciplinar, unindo as linguagens da fotografia e da escrita, tendo sido lançada com o apoio do Edital Rumos, do Itaú Cultural
Nós vivemos em um tempo de especializações exacerbadas, onde os campos do conhecimento se encerram em seus próprios nichos, criando barreiras que muitas vezes dificultam a compreensão holística do mundo. É nesse contexto que o lançamento de Foi um jeito de derreter, de Jéssica Stori, ressoa com uma potência particular. A obra não é apenas um livro; é um manifesto sutil, um convite explícito para que o leitor e o pensador contemporâneo permitam que as fronteiras conceituais se dissolvam, que as categorias se misturem e que a realidade seja percebida através de lentes plurais.
Por que uma doutora em História, com a rigorosa formação que a disciplina exige, optaria por uma novela transdisciplinar, combinando fotografia e escrita? A resposta, em minha análise, reside na crescente percepção de que a verdade, ou a compreensão profunda, raramente habita um único domínio. A história não é apenas texto; é imagem, emoção, contexto visual e sensorial. O projeto de Stori é um reflexo do nosso anseio coletivo por narrativas que transcendam a aridez factual, que nos convidem a sentir e ver, além de apenas ler e interpretar. É um reconhecimento de que a realidade é intrinsecamente multifacetada e exige múltiplas abordagens para ser apreendida.
O que isso muda na vida do cidadão comum? Muito. Em uma era de polarização e de informações fragmentadas, a transdisciplinaridade oferece um antídoto vital. Ela nos ensina que problemas complexos – sociais, políticos, ambientais – não podem ser resolvidos por uma única lente. Ao nos expor a uma obra que integra diferentes linguagens e saberes, somos sutilmente treinados a pensar de forma mais integrada, a questionar as divisões artificiais entre "ciência" e "arte", entre "razão" e "emoção". É um exercício de empatia intelectual, que nos capacita a ver conexões onde antes víamos apenas rupturas.
A participação do Edital Rumos, do Itaú Cultural, neste lançamento, não é um detalhe menor. Ela sinaliza uma compreensão por parte das instituições de fomento à cultura de que o apoio à inovação artística e acadêmica deve ir além do convencional. Não se trata apenas de financiar a arte pela arte, mas de investir em projetos que alargam os horizontes da percepção e do conhecimento. É um reconhecimento do valor intrínseco de empreendimentos que, como o de Stori, ousam questionar a separação das caixas onde tradicionalmente confinam o saber humano.
As consequências a longo prazo de iniciativas como Foi um jeito de derreter são profundas. Nós estamos testemunhando uma redefinição do que significa "produzir conhecimento" e "fazer arte". A fusão de fotografia e escrita, sob a batuta de uma historiadora, estabelece um precedente para futuras gerações de criadores e pesquisadores. Ela incentiva a criatividade que nasce na intersecção, na ruptura das normas. Prevejo um futuro onde a rigidez disciplinar cederá cada vez mais espaço à fluidez e à criatividade híbrida, enriquecendo nosso repertório cultural e a profundidade de nossa compreensão sobre o mundo. Este é um caminho para que o saber se torne mais acessível, mais humano e, talvez, mais capaz de "derreter" as barreiras que ainda nos separam da verdade plena.
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