O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro decidiu terceirizar a prestação de contas do 'Dark Horse', com dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro, e repasse de fundo dos EUA segue sem detalhes
Observamos com uma dose de apreensão a notícia sobre a recusa em esclarecer o financiamento do filme Dark Horse, especialmente quando a cifra de R$ 61 milhões e a figura de um banqueiro proeminente, Daniel Vorcaro, se entrelaçam a um membro da família de um ex-presidente. Mais do que um simples imbróglio financeiro, este episódio nos convida a uma reflexão profunda sobre os pilares da transparência e da confiança nas relações entre poder, dinheiro e esfera pública.
A promessa inicial de uma prestação de contas pública, seguida pela decisão de terceirizá-la e pela subsequente ausência de detalhes sobre um repasse de um fundo dos EUA, não é apenas um detalhe burocrático. É um sintoma. É um sinal eloquente de como a opacidade pode se infiltrar e, por vezes, até mesmo se normalizar em espaços que deveriam ser de cristalina clareza, dada a conexão com figuras públicas e o escrutínio inerente à vida política.
Por que isso acontece? A meu ver, reside em uma compreensão deturpada ou, no mínimo, conveniente, do que significa ocupar um cargo de relevância pública ou estar intimamente ligado a um. O limite entre o privado e o público, que já é tênue, torna-se ainda mais nebuloso quando grandes somas de dinheiro circulam em projetos que, embora culturais, têm seu brilho refletido em personalidades políticas. A justificativa para a falta de detalhamento público, quando existe uma expectativa criada, invariavelmente tropeça na necessidade fundamental de prestação de contas à sociedade.
O que isso muda na vida do cidadão comum? Para o indivíduo médio, cada episódio de falta de transparência, cada recusa em esclarecer os meandros de grandes transações financeiras envolvendo políticos, é um tijolo a menos no muro da confiança nas instituições. Cria-se a percepção de que há um conjunto de regras para "eles" e outro para "nós". Alimenta-se o cinismo e a descrença, sentimentos corrosivos para qualquer democracia que almeje a integridade e a participação popular. A sensação de que há uma cortina de fumaça onde deveria haver luz plena é exaustiva e perigosa.
As consequências a longo prazo são ainda mais preocupantes. A insistência na falta de transparência pode pavimentar um caminho onde a influência de grandes financiadores sobre projetos e, consequentemente, sobre o espectro político, torne-se um fantasma constante. Desvaloriza-se o princípio de que o dinheiro na política, ou adjacente a ela, deve ser rastreável e justificável. Corremos o risco de ver a lógica do compliance e da boa governança esvaziada de seu real significado, transformando-se em mera retórica, enquanto o modus operandi da opacidade se solidifica.
Nós, enquanto sociedade, precisamos questionar: é aceitável que a promessa de publicidade de contas seja substituída pela terceirização e pelo silêncio, especialmente quando o montante envolvido é tão expressivo? A cultura da prestação de contas não pode ser uma opção, mas uma obrigação inegociável, um pilar que sustenta a legitimidade de quem se propõe a atuar na esfera pública. Afinal, a luz sobre os fatos é o melhor antídoto contra as sombras da desconfiança e da dúvida, garantindo que o interesse público prevaleça sobre quaisquer interesses particulares velados.
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