TSE definiu a divisão do horário eleitoral gratuito para a disputa presidencial de 2026. Lula terá o maior tempo no rádio e na TV, seguido por Flávio Bolsonaro, enquanto algumas candidaturas ficarão fora dos blocos por não cumprir os critérios legai
A definição do tempo de propaganda eleitoral gratuita pelo Tribunal Superior Eleitoral para a disputa presidencial de 2026 é mais do que um mero trâmite burocrático; é a materialização da espinha dorsal da nossa lógica eleitoral. Ao vermos a distribuição, com Lula garantindo o maior quinhão e Flávio Bolsonaro vindo em seguida, enquanto outras candidaturas sequer conseguem um espaço significativo, somos compelidos a refletir sobre a verdadeira natureza da nossa democracia midiática.
Essa estrutura, embora legalmente embasada em critérios como a representatividade dos partidos no Congresso, perpetua um ciclo. Ela favorece de forma quase inerente os candidatos vinculados a grandes coligações ou partidos já estabelecidos, conferindo-lhes uma visibilidade massiva que, na prática, se torna uma barreira intransponível para vozes emergentes ou propostas inovadoras. A questão que se impõe é: será que estamos realmente oferecendo um level playing field para o debate de ideias, ou apenas consolidando as hegemonias pré-existentes?
Para o cidadão comum, o impacto dessa distribuição é direto e, por vezes, sutilmente manipulador. O tempo de rádio e TV, por mais que tentemos negá-lo na era digital, ainda possui um alcance massivo, especialmente em camadas da população com menor acesso à internet ou menos engajadas com as nuances das redes sociais. Essa assimetria de tempo gera uma distorção informacional, onde as narrativas dos grandes candidatos são reiteradas exaustivamente, enquanto a complexidade e a pluralidade de visões ficam à margem.
O que isso muda na vida de quem vota? Muda a percepção de realidade política. O eleitor é exposto a uma quantidade desproporcional de conteúdo de poucos players, o que pode solidificar pré-conceitos, ditar a pauta do debate público e até mesmo obscurecer alternativas viáveis. A capacidade de um candidato como Flávio Bolsonaro, senador por São Paulo, ou o próprio ex-presidente Lula, de ocupar espaços tão vastos no éter é um reflexo do capital político e midiático acumulado, que se traduz em segundos preciosos na televisão.
As consequências a longo prazo são preocupantes para a saúde da nossa democracia. Se a entrada no jogo eleitoral de forma competitiva depende quase exclusivamente do tamanho da estrutura partidária e da capacidade de se aliar a essas forças, estamos criando um sistema oligárquico disfarçado de democrático. A diversidade de pensamento, a renovação política e a chance de que novas lideranças consigam apresentar suas ideias de forma equitativa tornam-se cada vez mais raras.
É tempo de questionar a eficácia e a equidade desse modelo na paisagem comunicacional atual. Enquanto a internet oferece a promessa de democratização do acesso à informação, a permanência de um sistema de horário eleitoral com tamanhas disparidades no rádio e na TV nos faz indagar: estamos realmente construindo uma cidadania informada e capaz de escolher livremente, ou apenas assistindo a um espetáculo onde os atores principais já têm seus papéis garantidos pelo tamanho do seu palco?
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