Governador de São Paulo afirmou que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro à Presidência facilitaria a relação do Estado com a União. Tarcísio de Freitas também confirmou que os dois participarão juntos de eventos durante a campanha eleitoral
A declaração do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, sobre como a eleição de Flávio Bolsonaro à Presidência facilitaria a relação entre o estado e a União, é mais do que um mero alinhamento político estratégico. Ela nos convida a uma reflexão profunda sobre o funcionamento da nossa federação e as expectativas que os cidadãos devem ter de seus governantes. Em um cenário ideal, a colaboração entre esferas de governo deveria ser intrínseca e desvinculada de simpatias partidárias, baseada unicamente no interesse público e na eficiência administrativa.
É inegável que a afinidade política pode, em certas circunstâncias, desburocratizar processos e acelerar projetos. Contudo, quando essa afinidade é explicitamente apontada como um fator facilitador essencial, acende-se um alerta. Perguntamo-nos: o que acontece com estados ou municípios cujos líderes não partilham da mesma ideologia ou linha partidária do governo federal? A governança eficaz e a alocação de recursos devem ser prerrogativas de todos, sem que a cor da bandeira partidária do líder de um ente federativo se torne um pré-requisito para o bom andamento de suas pautas.
Essa perspectiva de “facilitação” sugere uma dependência que pode minar a autonomia dos estados e distorcer a equidade na distribuição de investimentos e atenções. O cidadão comum, que paga seus impostos independentemente de quem esteja no poder, tem o direito de esperar que os serviços públicos e as infraestruturas necessárias à sua vida sejam implementados com base em critérios técnicos e sociais, e não na capacidade de um governador ou prefeito de "ter acesso" ou "agradar" o Planalto. A governança deve ser institucional, não pessoal.
A longo prazo, essa lógica pode fragilizar os alicerces democráticos, incentivando um sistema onde a barganha política prevalece sobre o planejamento estratégico e a meritocracia. Cria-se um ambiente onde a lealdade partidária é recompensada com privilégios de acesso e recursos, enquanto a divergência pode ser penalizada com entraves e atrasos. Isso é preocupante, pois desvirtua o propósito da administração pública e a igualdade federativa, essenciais para a coesão nacional.
Participar de eventos conjuntos durante a campanha eleitoral é um movimento natural no jogo político, que visa consolidar bases e projetar forças. Contudo, a retórica que acompanha esses gestos é crucial. Quando se condiciona a "vida" de um estado à vitória de um determinado candidato à presidência, estamos, talvez sem perceber, legitimando um arranjo onde o Estado se sobrepõe ao Estado, e a política partidária subjuga o interesse coletivo e a impessoalidade administrativa. A sociedade deve estar atenta para que a busca por alinhamentos não se traduza em um pacto de subordinação que comprometa a saúde da nossa democracia federativa.
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