“Quando um grupo é perseguido, nenhum grupo está a salvo”, alerta Guterres

O alerta emitido por António Guterres, Secretário-Geral das Nações Unidas, neste Dia Internacional em Memória das Vítimas de Atos de Violência Baseados em Religião ou Crença, ecoa como um lembrete incômodo sobre a fragilidade das nossas sociedades multiculturais. Quando observamos o recrudescimento da intolerância global, somos forçados a admitir que a erosão da liberdade de culto não é um evento isolado, mas o sintoma de uma falência coletiva na arquitetura da convivência humana. A perseguição a um grupo específico nunca é o fim, mas o prenúncio de um ambiente de medo generalizado onde a alteridade é tratada como uma ameaça existencial.

O que torna este cenário particularmente alarmante, em pleno 2026, é o papel desempenhado pela arquitetura das plataformas digitais e o papel permissivo de governos que optam pelo silêncio ou pela instrumentalização da fé para fins de hegemonia política. A disseminação do ódio algorítmico transformou o campo fértil das redes sociais em um tribunal de exceção, onde a crença alheia é julgada e condenada com a velocidade de um clique. O cidadão comum, ao se deixar envolver por essa narrativa de exclusão, muitas vezes ignora que, ao validar a supressão do outro, ele mesmo está pavimentando o caminho para a sua própria vulnerabilidade futura.

Precisamos questionar por que os Estados, detentores do monopólio da proteção dos direitos humanos, falham de forma tão recorrente em suas obrigações básicas. A proteção à liberdade de crença não é uma concessão de benevolência estatal, mas um alicerce da democracia que, uma vez removido, desmorona todo o edifício institucional. A intolerância não é um vírus que se combate com decretos isolados, mas uma patologia social que se nutre do enfraquecimento dos laços comunitários e da desumanização do próximo.

A longo prazo, as consequências dessa espiral de violência são devastadoras não apenas para as minorias religiosas, mas para a própria integridade do tecido social. Quando normalizamos o ataque à dignidade de um grupo por sua fé, desaprendemos a exercer a empatia, transformando a convivência em um exercício de sobrevivência. Precisamos resgatar a noção de que o pluralismo não é um risco a ser contido, mas a nossa maior salvaguarda contra o autoritarismo. Sem a proteção inegociável da liberdade de cada indivíduo, a segurança de todos torna-se uma ilusão perigosa.

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