
Psicanálise sob Ocupação, de Lara e Stephen Sheehi, questiona a suposta neutralidade da psicanálise diante da ocupação palestina. A obra mostra, a partir de relatos clínicos, como a violência política e as relações coloniais atravessam e estruturam o sofrimento psíquico
A publicação de Psicanálise sob Ocupação, de Lara e Stephen Sheehi, não é apenas um evento acadêmico; ela representa um convite urgente a uma reavaliação profunda da prática psicanalítica e, por extensão, de todas as disciplinas que se propõem a abordar a condição humana. Por muito tempo, a psicanálise foi percebida, e muitas vezes ensinada, como um campo de neutralidade, um santuário onde as complexidades da psique poderiam ser exploradas à margem das turbulências do mundo exterior. Contudo, essa obra nos força a confrontar uma verdade desconfortável: a mente não é uma ilha imune aos terremotos sociais e políticos.
O questionamento da neutralidade da psicanálise diante da ocupação palestina serve como um ponto de partida para uma reflexão mais ampla. Por que essa suposta neutralidade é tão problemática? Porque ela tende a descontextualizar o sofrimento individual, transformando dores coletivas e estruturais em meras patologias pessoais. Quando um indivíduo vive sob ocupação, a violência política e as relações coloniais não são apenas pano de fundo; elas são o ar que se respira, a realidade que molda cada pensamento, cada emoção, cada sonho.
Essa perspectiva não é uma mera disputa teórica; ela tem implicações concretas para a vida do cidadão comum, especialmente daqueles que habitam zonas de conflito ou que carregam o peso de legados coloniais. Ela nos ensina que o trauma individual, muitas vezes diagnosticado e tratado isoladamente, é intrinsecamente ligado a um trauma social e histórico mais vasto. A angústia de um palestino, por exemplo, não pode ser plenamente compreendida sem reconhecer a violência contínua da ocupação, a perda de terras, a fragmentação cultural e a desumanização sistêmica. Ignorar o contexto político é arriscar patologizar a resistência e individualizar a opressão.
As consequências a longo prazo dessa crítica são profundas. Primeiro, ela exige uma descolonização do saber psicanalítico, desafiando modelos eurocêntricos que nem sempre se aplicam ou ressoam com as experiências de povos não-ocidentais. Segundo, ela impulsiona uma ética de responsabilidade nos terapeutas e na própria disciplina. Não podemos nos dar ao luxo de sermos meros observadores passivos; a psicanálise precisa reconhecer seu papel potencial, tanto na reprodução de estruturas opressoras (pela via da neutralidade apolítica) quanto na facilitação da resistência e da cura (pela via da contextualização e engajamento).
Para nós, enquanto analistas sociais e cidadãos engajados, essa obra reforça a ideia de que a saúde mental não é dissociável da justiça social. A paz interior é um luxo difícil de alcançar quando a paz exterior é constantemente ameaçada. A proposta dos Sheehi nos incita a ver que o consultório psicanalítico, longe de ser um espaço neutro, é um micro-cosmos onde as macro-estruturas de poder se manifestam e devem ser desvendadas. É um convite a uma psicanálise que não se furta a olhar para o lado de fora, para a complexa interação entre o eu e o mundo, entre o indivíduo e as forças políticas que o moldam.
A lição de Lara e Stephen Sheehi é clara: a pretensão de neutralidade em tempos de opressão é, em si, uma posição política. E, muitas vezes, é uma posição que serve para perpetuar o status quo. Precisamos de uma psicanálise que ouça não apenas as palavras, mas também os gritos silenciosos da história e da injustiça, uma psicanálise que compreenda que a cura verdadeira só pode florescer em solo de liberdade e dignidade plena.
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