Por uma São Paulo antirracista

Durante 16 anos, nenhuma lei voltada especificamente ao combate ao racismo havia sido aprovada no estado de São Paulo. O objetivo do Protocolo Antirracista é garantir assistência às pessoas vítimas do preconceito racial.

A notícia de que São Paulo finalmente implementa um Protocolo Antirracista, após longos 16 anos sem legislação específica, é, no mínimo, um lembrete contundente. Não de um avanço célere, mas de uma dívida histórica e social que teimava em ser ignorada. A aprovação de uma medida, algo que deveria ser um processo orgânico na construção de uma sociedade equitativa, transformou-se em um marco tardio, quase um pedido de desculpas institucional por décadas de invisibilização e negligência.

Por que essa morosidade? A resposta reside na própria estrutura de uma sociedade que, por muito tempo, preferiu negar a existência do racismo ou, quando muito, reduzi-lo a atos isolados de intolerância individual. A ausência de uma lei específica durante tanto tempo em um estado que se apresenta como locomotiva econômica e cultural do Brasil, revela uma cegueira coletiva ou uma deliberada inação diante de um problema que afeta profundamente a dignidade e as oportunidades de milhões de cidadãos. O fato de ser um "protocolo", ainda que fundamental, pode sinalizar uma cautela que, em outros tempos, postergou ações mais enérgicas.

Para o cidadão comum, especialmente para as vítimas do preconceito racial, este protocolo muda, em primeiro lugar, a paisagem da legitimação. Ele estabelece uma trilha formal para a denúncia e, mais importante, para a assistência. Isso significa que a experiência da vítima não será mais relegada ao limbo do "mimimi" ou da "superação individual", mas sim reconhecida como uma violação de direitos que demanda intervenção estatal. É a promessa de que não se estará mais sozinho, completamente desamparado, diante da ferida aberta pelo racismo. A formalização da assistência é um bálsamo necessário, ainda que não cure a chaga.

As consequências a longo prazo são multifacetadas e dependem intrinsecamente da efetividade de sua implementação. Simbolicamente, o Protocolo Antirracista de São Paulo pode servir como um catalisador para outros estados e municípios, estimulando a criação de mecanismos semelhantes. No plano prático, ele exigirá treinamento contínuo de agentes públicos, dotação orçamentária adequada e, acima de tudo, uma mudança cultural dentro das próprias instituições. Sem isso, corremos o risco de criar mais uma peça legislativa bem-intencionada, mas pouco eficaz na realidade do dia a dia.

É ingenuidade, contudo, acreditar que um protocolo, por mais abrangente que seja, resolverá a complexidade do racismo estrutural. Ele é um passo, um sinal de que a sociedade paulista começa a reconhecer a urgência. A verdadeira transformação, no entanto, reside na educação, no empoderamento das comunidades, na desconstrução dos preconceitos enraizados e na luta incessante por equidade em todas as esferas da vida. Nós, como sociedade, precisamos ir além da mera assistência e buscar a prevenção ativa, a valorização da diversidade e a construção de um futuro onde a cor da pele seja, de fato, um mero detalhe e nunca um fardo.

Postar um comentário

0 Comentários