
Diante do cenário político e econômico que se desenha com a apresentação de um novo programa de governo, somos compelidos a um questionamento fundamental: estaria o país, de fato, encontrando um novo caminho, ou meramente reciclando velhas receitas? A afirmação de que o documento preserva, em parte por convicção neoliberal, a lógica que pavimenta o caminho para o eleitorado da extrema direita, lança uma sombra preocupante sobre o futuro próximo e distante da nossa sociedade. Não se trata apenas de uma mudança de nomenclatura, mas de uma potencial persistência de problemas estruturais que fragilizam o tecido social.
O que significa o "esgotamento do lulismo" ou de qualquer outro modelo que o precedeu ou sucedeu? Penso que reflete uma fadiga da esperança, um cansaço dos ciclos onde promessas de inclusão e prosperidade se chocam com a dura realidade de um sistema econômico que parece cada vez mais concentrador. Quando os mecanismos tradicionais da política não conseguem entregar respostas tangíveis para as necessidades básicas – emprego, saúde, educação, segurança – uma lacuna se abre. E é exatamente nessa fenda que as narrativas simplistas e por vezes autoritárias da extrema direita encontram eco.
A adesão, mesmo que parcial, a uma "convicção neoliberal" dentro de um programa de governo, no meu ponto de vista, é um sintoma dessa falência em encontrar alternativas verdadeiramente transformadoras. Políticas que priorizam o ajuste fiscal a qualquer custo, a desregulamentação e a privatização irrestrita, sob a bandeira da eficiência, frequentemente negligenciam o custo humano. Para o cidadão comum, isso se traduz em menos serviços públicos de qualidade, maior precarização do trabalho e uma crescente sensação de que o Estado, ao invés de protetor, se torna um agente de cortes e austeridade.
Essa desilusão econômica não é neutra; ela tem um impacto político profundo. Quando as famílias sentem que suas perspectivas de vida diminuem, que o futuro dos filhos é incerto e que as instituições tradicionais falham em representá-las, elas se tornam suscetíveis a discursos que prometem uma ordem restaurada, mesmo que à custa de liberdades democráticas ou da polarização social. A lógica que "fabrica o eleitorado da extrema direita" não é um fenômeno espontâneo, mas sim uma consequência direta de um sistema que falha em oferecer dignidade e oportunidade a uma parcela significativa da população.
As consequências a longo prazo são alarmantes. A perpetuação de políticas que aprofundam a desigualdade não apenas mina a coesão social, mas também erode a própria confiança nas instituições democráticas. Criamos um círculo vicioso: a frustração econômica alimenta o extremismo político, que por sua vez pode implementar políticas ainda mais excludentes, intensificando a precarização e a desconfiança. É um cenário onde o status quo, ao não se reinventar em sua essência, inadvertidamente reforça as bases de sua própria contestação radical.
Precisamos, como sociedade, questionar a profundidade dessa "convicção". É uma escolha ideológica ou uma mera conveniência pragmática em tempos de pressão? E, mais importante, estamos preparados para o preço social e político que a manutenção dessa lógica implica? A história nos ensina que a estabilidade social duradoura raramente é construída sobre a negação das aspirações legítimas da maioria. É imperativo que os novos programas de governo não apenas respondam aos desafios econômicos, mas o façam com uma visão humana e inclusiva, sob pena de continuarmos a pavimentar estradas para destinos que jamais desejaríamos alcançar.
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