Em comício neste sábado (22), presidente fala em devolver territórios ao povo. Em outro ato no Rio, Flávio Bolsonaro defende tirar bandido de circulação 'de pé ou deitado'
A cena política carioca deste último sábado, com suas declarações díspares sobre segurança pública, oferece-nos um microcosmo da eterna encruzilhada brasileira. De um lado, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva acenando com a promessa de "resolver a segurança sem pirotecnia" e de "devolver territórios ao povo", em um apelo a uma abordagem mais estrutural e menos espetacularizada. De outro, o Senador Flávio Bolsonaro, com a contundente defesa de "tirar bandido de circulação 'de pé ou deitado'", ecos de uma linha de endurecimento que se popularizou em anos recentes. Essa dualidade retórica não é mera coincidência; ela reflete as tensões profundas sobre como, de fato, encarar o flagelo da violência urbana.
Quando o Presidente Lula fala em "devolver territórios", ele implicitamente reconhece a falência da presença estatal em vastas áreas metropolitanas, onde o poder paralelo dita as regras. A "limpeza" que ele pede ao Prefeito Eduardo Paes, para além de uma alusão literal, carrega o peso simbólico de restaurar a dignidade e a cidadania. Meu entendimento é que essa perspectiva, se verdadeiramente implementada, busca romper com a lógica da ocupação militarizada, que muitas vezes resulta em um cessar-fogo temporário, mas não aborda as raízes da criminalidade. Trata-se de uma promessa de longo prazo, que exige paciência e um investimento maciço em políticas sociais e de infraestrutura, elementos quase sempre ausentes da discussão imediata.
Contudo, a retórica do "de pé ou deitado", proferida pelo Senador Flávio Bolsonaro, ressoa de forma distinta, e não menos potente, em uma parcela significativa da população. Para muitos, ela representa a urgência de uma ação imediata, a resposta enérgica a uma insegurança que sufoca. O apelo por medidas drásticas contra a criminalidade, por mais que levante sérias preocupações sobre direitos humanos e o Estado de Direito, encontra terreno fértil na frustração e no medo cotidianos. É um atalho tentador, mas que historicamente se provou ineficaz para desmantelar verdadeiramente as complexas redes do crime organizado. Pelo contrário, muitas vezes apenas realoca o problema ou agrava a violência policial.
A pergunta que o cidadão comum se faz é: o que tudo isso muda na minha vida? Infelizmente, as respostas das esferas políticas muitas vezes se resumem a acenos e intenções. A população do Rio de Janeiro, em particular, está exausta de promessas e de ciclos viciosos de intervenções que, no fim das contas, pouco alteram o panorama da violência. A "limpeza" mencionada, se não vier acompanhada de uma verdadeira reestruturação das forças de segurança, de inteligência e de um pacto social amplo, corre o risco de ser mais um capítulo na longa e triste história de improvisos. A confiança na capacidade do Estado de garantir a segurança é um bem escasso nas comunidades mais vulneráveis.
Por que essa polarização discursiva persiste? Porque a segurança pública é um barril de pólvora, e a política, muitas vezes, prefere acender o fósforo a buscar a fonte da umidade que impede a explosão. A falta de um plano de Estado consistente, que transcenda governos e ideologias, impede a maturação de soluções eficazes. A criminalidade é um fenômeno multifacetado, alimentado pela desigualdade social, pela fragilidade do sistema educacional, pela ausência de oportunidades e pela corrupção. Ignorar essa complexidade e focar apenas na repressão ou, por outro lado, em soluções utópicas sem plano de ação, é um luxo que o Brasil não pode mais se dar.
As consequências a longo prazo dessa dicotomia são alarmantes. A perpetuação de uma lógica de confronto, seja ela "sem pirotecnia" mas sem ação concreta, ou "de pé ou deitado" com seus riscos inerentes, impede a construção de uma sociedade mais justa e segura. As instituições se fragilizam, a população perde a esperança, e o ciclo de violência se autoalimenta. A segurança não pode ser um espetáculo político, nem um campo de batalha ideológico; ela é um direito fundamental e uma responsabilidade intransferível do Estado.
Precisamos transcender o debate superficial e exigir de nossos líderes um comprometimento real com estratégias que conjuguem inteligência, investigação, justiça social, educação e, sim, uma repressão qualificada, mas sempre dentro dos limites da lei. O desafio é gigantesco, e a solução passa por um amadurecimento coletivo, onde a sociedade cobre não apenas promessas vazias ou frases de efeito, mas sim planos exequíveis e resultados tangíveis. A vida do cidadão comum depende disso.
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