"Sou a favor de passar a régua em quem quer que seja. Porque tem uma lei. Ela tem que ser respeitada. A pessoa errou? Eu não quero saber o partido, a religião, o time de futebol. Paga", disse Haddad em sabatina promovida por CBN, O Globo e Valor Econômico.
A frase proferida por Fernando Haddad, ex-ministro e então candidato ao Governo de São Paulo, ecoa uma aspiração quase universal por justiça e isonomia perante a lei. "Paga", sentencia ele, sem distinção de partido, religião ou time de futebol. É um discurso potente, que ressoa em uma sociedade cansada de privilégios e da sensação de que a balança da justiça pende para alguns. Contudo, a realidade política, como sempre, surge para testar a solidez desses princípios, revelando uma dicotomia que, invariavelmente, nos leva a questionar a profundidade do compromisso.
É nesse cenário que a postura de seu vice, ao defender um ex-chefe de gabinete de Lula, se torna não apenas um contraponto, mas um sintoma de um mal crônico na política. Não se trata aqui de julgar o mérito da defesa em si, mas de observar o desalinhamento entre o ideal proclamado pelo cabeça da chapa e a ação pragmática de seu parceiro. Essa dissonância levanta uma questão central: será que a pregação pela isonomia é apenas uma ferramenta retórica de campanha, ou um verdadeiro guia para a conduta ética? Nós, cidadãos, somos constantemente expostos a essa esquizofrenia política, onde a teoria da lei igual para todos raramente encontra seu espelho na prática da defesa de aliados.
O que muda na vida do cidadão comum quando nos deparamos com tais inconsistências? A resposta é dolorosa: a erosão da confiança. Cada vez que um político defende a aplicação rigorosa da lei para 'os outros', mas flexibiliza essa mesma régua para os seus, a fé nas instituições se esvai. Acreditamos menos na imparcialidade do sistema, na promessa de justiça e na própria capacidade da política de se autorreformar. Esse ceticismo generalizado não é sem custos; ele abre caminho para o populismo, para a desinformação e, em última instância, fragiliza os pilares da democracia.
As consequências a longo prazo são graves. Uma sociedade que perde a crença na equidade da justiça é uma sociedade mais suscetível à polarização e ao anseio por soluções simplistas e, muitas vezes, autoritárias. A mensagem implícita é que, no jogo do poder, a lealdade política pode, e muitas vezes irá, sobrepor-se ao império da lei. Estamos, portanto, diante de um desafio sistêmico, que transcende a figura de um único candidato ou de sua chapa. É um reflexo da nossa própria cultura política, onde o nós contra eles ainda dita as regras, mesmo quando o discurso público aponta para um ideal de coesão e justiça universal.
A exigência de "passar a régua" deve ser aplicada não apenas aos adversários, mas com a mesma rigidez a todos, especialmente aos próprios. A incoerência entre o que se diz e o que se pratica não é um mero deslize; é um golpe na credibilidade, um veneno que corrói as fundações de qualquer projeto de nação minimamente justo e equitativo. Nossa responsabilidade como sociedade é demandar consistência, pois só assim poderemos, talvez, construir um futuro onde a lei não seja uma ferramenta de conveniência, mas um escudo para todos.
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