Exagero de tombamentos ou nas desigualdades de preservação?

A recente manifestação de empresários da Penha e de outros bairros que se situam para além da chamada "zona central" de nossas metrópoles não é meramente um grito isolado, mas sim um sintoma eloquente de um dilema urbano profundo. Ela revela a tensão constante entre as aspirações de desenvolvimento econômico local e as complexas políticas de preservação do patrimônio, sublinhando uma percepção generalizada de seletividade e desigualdade na sua aplicação.

De fato, a queixa sobre a seletividade nas políticas municipais de preservação histórica possui um fundo de razão. Historicamente, os esforços de tombamento e conservação tendem a se concentrar em áreas já valorizadas, com visibilidade turística e histórica consolidada, negligenciando ou tardando a chegar aos bairros periféricos. Quando chegam, muitas vezes sem o devido diálogo ou adaptação às realidades locais, são percebidos mais como um entrave burocrático do que como um instrumento de valorização, gerando frustração e resistência entre os empreendedores e moradores.

Contudo, a solução proposta de apelar para o destombamento, ou seja, a retirada do status de proteção, parece-nos um atalho perigoso e, no limite, contraproducente. É como jogar fora a água do banho com a criança junto. Bairros como a Penha possuem uma identidade arquitetônica e histórica singular, que é, em si mesma, um ativo inestimável. Essa singularidade, longe de ser um estorvo, representa um diferencial competitivo crucial em um mercado cada vez mais sedento por autenticidade e experiências únicas.

O que se perde com o destombamento? Perde-se a memória edificada da cidade, os traços que contam a história de gerações, a paisagem que confere caráter e pertencimento aos seus habitantes. Para o cidadão comum, a demolição indiscriminada em nome de um desenvolvimento acelerado pode significar a perda de referências visuais e emocionais, a homogeneização do espaço urbano e, paradoxalmente, a diluição daquilo que tornava seu bairro especial e, portanto, atraente para a própria atividade comercial e turística.

As consequências a longo prazo são graves. A permissão para descaracterizar indiscriminadamente o patrimônio abre um precedente para a massificação e a perda irremediável da identidade cultural. Em vez de se tornarem polos de originalidade e de um desenvolvimento que respeita suas raízes, essas regiões correm o risco de se transformar em mais um conjunto de prédios genéricos, perdendo o charme que atrai consumidores e investidores em busca de algo além do trivial.

Nossa visão é clara: não precisamos de menos preservação, mas de uma preservação mais inteligente, inclusiva e equitativa. O desafio não está em derrubar as barreiras da proteção, mas em redesenhar as políticas para que elas se tornem catalisadoras de valor. Isso implica em um diálogo mais robusto entre poder público, iniciativa privada e comunidade, na oferta de incentivos fiscais para a manutenção e adaptação de imóveis tombados e na criação de projetos que integrem a conservação do patrimônio à vitalidade econômica local.

A preservação pode e deve ser uma ferramenta de desenvolvimento sustentável, capaz de gerar valor imobiliário, atrair turismo qualificado e fortalecer o senso de comunidade. A verdadeira luta dos empresários deveria ser por políticas que reconheçam o patrimônio como um capital cultural e econômico a ser gerido e potencializado, e não como um fardo a ser descartado. Somente assim construiremos cidades mais ricas, não apenas em recursos, mas em histórias e identidades.

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