A presença de Edmilson Costa no tabuleiro eleitoral de 2026 nos obriga a sair da zona de conforto do debate polarizado entre centro e direita, forçando-nos a encarar uma interrogação que há muito estava esquecida nas margens do sistema: ainda é possível, em um mundo globalizado e tecnologicamente integrado, conceber uma ruptura completa com o modelo capitalista? Ao apresentar o programa do Partido Comunista Brasileiro, Costa não busca apenas ajustar engrenagens ou propor reformas paliativas, mas propõe uma refundação das estruturas de poder que, para muitos, soa como um eco de um século passado, mas que, para outros, aponta para uma falha sistêmica que a social-democracia não conseguiu sanar.
O que mais impressiona na proposta não é o tom radical das medidas, como a reestatização ou a extinção do Senado, mas a crença inabalável na eficácia do chamado Poder Popular. Vivemos em uma era de desilusão democrática, onde o cidadão médio sente que seu voto é um cheque em branco que perde validade logo após a apuração. A ideia de orçamentos deliberativos e de uma constituinte mista toca em uma ferida aberta da nossa contemporaneidade: a alienação política. A grande questão aqui não é a viabilidade técnica dessas ideias, mas o diagnóstico implícito de que o contrato social brasileiro tornou-se obsoleto e incapaz de oferecer dignidade real à maioria da população.
Ao defender a desmilitarização da segurança pública e uma reforma tributária agressiva sobre grandes fortunas, Costa se coloca na antípoda de quase tudo o que chamamos de realismo político. O realismo, por sua vez, tem nos entregado um país de abismos sociais cada vez mais profundos e uma sensação de impotência institucional. É legítimo, portanto, questionar se o caminho do meio, tão zelado por analistas de mercado, não é justamente o que está nos mantendo estagnados. Propor uma alternativa socialista no Brasil de 2026 é um exercício de provocação intelectual que desafia a nossa capacidade de imaginar o futuro fora da lógica do lucro desenfreado.
No entanto, a viabilidade de um projeto dessa magnitude exige mais do que convicção teórica; exige uma base social capaz de sustentar uma ruptura, algo que o Brasil tem demonstrado dificuldades em articular de forma coesa. O risco de tais propostas é o isolamento, mas o perigo de ignorá-las é o conformismo. O historiador e economista, com sua longa trajetória acadêmica, traz para o debate a exigência de uma praxis que vai além das redes sociais, evocando a necessidade de uma organização de base que há muito foi substituída por um ativismo de aparências. Seja qual for o resultado nas urnas, a candidatura de Edmilson Costa funciona como um termômetro: ela mede até que ponto o sistema vigente ainda é capaz de absorver as insatisfações daqueles que não veem mais esperança nas vias tradicionais de poder.
Ao fim e ao cabo, analisar essa candidatura exige de nós uma desconstrução de dogmas. Não se trata de discutir se ele é de esquerda ou direita em um sentido puramente cartográfico, mas de entender que ele habita um campo de pensamento que questiona a própria premissa da nossa democracia liberal. Talvez a pergunta mais relevante para o cidadão comum não seja quem vencerá o pleito, mas por que, em um país tão desigual, a ideia de uma transformação radical ainda desperta tanto temor quanto esperança. O debate está posto e, independente da viabilidade eleitoral, as falhas expostas por esse programa de governo continuarão sendo os fantasmas que assombram qualquer gestão que pretenda governar o Brasil nos próximos anos.
0 Comentários