As possibilidades econômicas de Keynes em um mundo de mudanças disruptivas

O legado de John Maynard Keynes, em suas previsões sobre o progresso econômico e social, frequentemente ressoa em nossos dias como um eco distante de uma promessa não cumprida. A constatação de que o crescimento da renda média global se aproximou dos patamares por ele previstos, mas sem a contrapartida de uma redução na jornada de trabalho ou de uma sociedade intrinsecamente mais solidária, é um lembrete pungente das escolhas que fizemos – ou deixamos de fazer – no caminho. Não vemos a prosperidade sendo distribuída equitativamente; ao invés disso, observamos uma concentração de riqueza assustadora e a persistência de níveis inaceitáveis de fome.

Por que essa dissonância entre o potencial e a realidade? A resposta reside em grande parte na forma como o capital se organizou e nas ideologias que o guiaram. O modelo neoliberal, com sua ênfase na desregulamentação e na financeirização, tem se mostrado um vetor de acumulação desenfreada para poucos, em detrimento do bem-estar coletivo. A ideia de que a riqueza "escorreria" para baixo, beneficiando a todos, provou ser uma miragem, consolidando um abismo entre o topo e a base da pirâmide social.

As inovações tecnológicas, outrora vistas como um catalisador para a libertação do trabalho e o florescimento do lazer, tornaram-se, em muitos casos, ferramentas de intensificação da precarização. A automação e a inteligência artificial, em vez de diminuir a carga laboral para a maioria, frequentemente substituem empregos ou exigem uma adaptação constante e exaustiva. A gig economy, por exemplo, embora ofereça uma falsa sensação de autonomia, impõe uma realidade de incerteza, ausência de benefícios e jornadas exaustivas, transferindo riscos do empregador para o trabalhador.

Para o cidadão comum, o impacto é palpável e angustiante. A segurança no emprego é uma raridade, a estabilidade financeira um sonho distante e a perspectiva de uma aposentadoria digna cada vez mais incerta. Vivemos em uma era onde a produtividade atinge picos históricos, mas o trabalhador médio precisa de mais horas de esforço para manter um padrão de vida que, em décadas passadas, exigiria menos. A promessa de um futuro de lazer e prosperidade generalizada foi trocada por um presente de ansiedade e competição incessante.

As consequências a longo prazo são alarmantes. A polarização econômica fomenta a polarização social e política, corroendo a confiança nas instituições e a própria coesão da sociedade. O desespero econômico pode ser um terreno fértil para populismos e extremismos, ameaçando os pilares da democracia. Além disso, a busca incessante por crescimento econômico, muitas vezes em detrimento da sustentabilidade, acelera crises ambientais que, inevitavelmente, atingirão com mais força os mais vulneráveis.

É imperativo que repensemos os fundamentos de nosso sistema econômico. Não se trata de negar o progresso, mas de direcioná-lo para propósitos que realmente sirvam à humanidade. Precisamos questionar os modelos que perpetuam a desigualdade, exigindo políticas que promovam a distribuição de renda, a valorização do trabalho e o investimento em bem-estar social. O sonho keynesiano de uma sociedade mais justa e com tempo livre para o cultivo do espírito ainda é possível, mas exige uma vontade política e uma consciência coletiva que desafiem o status quo.

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