Síria tenta fortalecer instituições em meio a ameaças de segurança

A reconstrução de uma nação que foi reduzida a escombros pela geopolítica e pela brutalidade não é um processo de engenharia civil, mas uma dolorosa operação de reengenharia social. Quando observamos o esforço atual da Síria em consolidar suas instituições, o que vemos não é apenas a burocracia do Estado em movimento, mas a tentativa de um organismo moribundo de retomar as suas funções vitais. A nomeação de mulheres para a Suprema Corte Constitucional e para a Assembleia Popular é um gesto de importância simbólica incalculável, que sinaliza uma tentativa de ruptura com um passado recente onde a voz da cidadania foi silenciada pelo som constante das armas.

Entretanto, seria um erro de miopia intelectual acreditar que cadeiras ocupadas em um tribunal são sinônimos imediatos de estabilidade democrática. O desafio que o governo enfrenta perante o Conselho de Segurança não é meramente jurídico, mas existencial. A fragilidade das instituições é o terreno fértil onde o tráfico transfronteiriço e o radicalismo encontram o seu oxigênio. Enquanto a soberania estatal for desafiada por milícias e interesses de terceiras potências que ainda utilizam o território sírio como tabuleiro, a tentativa de fortalecimento institucional assemelha-se a colocar remendos em um tecido que continua sendo rasgado pelo fogo cruzado.

O que isso significa para o cidadão comum de Damasco ou Alepo? Para a maioria, a resposta é um misto de esperança cautelosa e exaustão absoluta. A estabilidade política, para o habitante médio, não é medida por decretos ou reformas parlamentares, mas pela capacidade de acessar bens básicos e pela segurança de não ser atingido por um atentado aleatório em um mercado público. A legitimidade de qualquer governo é construída sobre a entrega concreta da paz, e não apenas sobre a retórica das nomeações. Se o Estado não conseguir estender sua mão protetora por todas as fronteiras, a autoridade nas cortes superiores permanecerá sendo apenas um simulacro de ordem em um país ainda marcado pela fragmentação.

A longo prazo, a sobrevivência síria depende da transição de uma lógica de controle militar para uma lógica de pacto social. É imperativo compreender que as cicatrizes de uma década de guerra não se curam apenas com a reinstalação de quadros administrativos; elas exigem que o Estado volte a ser um provedor de esperança em vez de um gestor de sobrevivência. A inclusão de vozes femininas no alto escalão pode ser o catalisador de uma governança mais resiliente, mais atenta às dores do tecido social e menos apegada ao autoritarismo que pavimentou o caminho para o conflito inicial. O futuro da Síria não será decidido nos escritórios da ONU, mas na capacidade de sua elite política de convencer o próprio povo de que as instituições agora servem à vida, e não mais ao sacrifício.

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