O mito do atraso e a realidade da modernização no Irã



O termo "medieval" refere-se a um período histórico europeu específico, caracterizado pelo feudalismo e pela ausência de estruturas estatais modernas. Aplicar esse rótulo ao Irã atual ignora a realidade de uma nação industrializada, altamente urbanizada e com uma das populações mais escolarizadas de sua região. O fato de o país ser governado por uma teocracia clerical autocratica não anula a sua modernidade estrutural, tecnológica e social.

No campo científico e educacional, o Irã apresenta índices que contradizem totalmente a ideia de um país parado no tempo. Mais de 85% da população adulta é alfabetizada, e as universidades iranianas produzem um volume massivo de engenheiros, médicos e cientistas a cada ano. Um dado que frequentemente surpreende observadores ocidentais é que as mulheres representam a maioria dos estudantes universitários no país, inclusive em cursos de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, apesar das severas restrições legais e sociais que enfrentam no mercado de trabalho e na vida civil.

Tecnologicamente, o isolamento imposto pelas sanções internacionais forçou o Irã a desenvolver uma robusta indústria nacional de substituição de importações. O país possui programas avançados - e altamente controversos — nas áreas de energia nuclear, desenvolvimento de satélites aeroespaciais, biotecnologia e engenharia militar, sendo um grande produtor de drones e mísseis complexos. No cotidiano urbano, a população é amplamente conectada à internet, utiliza aplicativos locais de transporte e serviços financeiros digitais, operando dentro de uma dinâmica de consumo tipicamente moderna.

A percepção de um Irã "medieval" nasce, na verdade, do choque provocado por suas leis baseadas em uma interpretação estrita da Sharia, que restringe liberdades individuais, direitos das mulheres e o pluralismo político. Contudo, essa estrutura de controle social é mantida por meio de um aparato de vigilância digital perfeitamente moderno e de uma máquina estatal centralizada, e não por estruturas feudais. Compreender o Irã exige separar a ideologia reacionária de seu governo do dinamismo e da sofisticação de sua sociedade civil, que clama por mudanças justamente por estar plenamente inserida no século 21.

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