Enquanto Brasil e outros países celebram recordes no setor, cada vez mais cidades na Europa adotam medidas para conter as multidões. Como achar um equilíbrio?
Nós vivemos um paradoxo. Nunca se viajou tanto, e a democratização do acesso a destinos antes considerados inatingíveis é, em si, um avanço notável. No entanto, o que deveria ser uma ponte para a compreensão cultural e o desenvolvimento econômico transformou-se, em muitos casos, em uma torrente descontrolada que ameaça engolir aquilo que busca admirar. Assistimos, perplexos, à emergência do overtourism, um fenômeno que transcende a mera aglomeração e se manifesta como um verdadeiro câncer social, econômico e ambiental.
Mas por que essa explosão justamente agora? A resposta, creio eu, reside na confluência de fatores poderosos. A ascensão das companhias aéreas de baixo custo e plataformas de hospedagem como o Airbnb tornou o “sonho” de viajar acessível a bolsos antes excluídos. Paralelamente, as redes sociais catapultaram a imagem de destinos exóticos e históricos para a tela de bilhões, criando uma espécie de frenesi por paisagens “instagramáveis”. O turismo de vingança pós-pandemia, com suas mais de 1,5 bilhão de viagens internacionais em 2025, apenas acelerou uma tendência já em marcha. O problema não é viajar, mas a escala e a forma predatória como o fazemos.
As consequências para o cidadão comum nos destinos mais afetados são gritantes. Em locais como Veneza, Amsterdã ou Kyoto, moradores veem suas cidades se convertendo em cenários de parque temático. O custo de vida dispara, impulsionado pela gentrificação e pela especulação imobiliária que privilegia aluguéis de curta temporada. Ruas outrora vibrantes, com seus comércios familiares, cedem lugar a lojas de souvenirs genéricos e franquias globais. A infraestrutura de água, esgoto e energia entra em colapso, o trânsito vira pesadelo e o lixo se acumula, enquanto a cultura local é gradualmente sufocada.
Não menos alarmante é o impacto ambiental. Praias paradisíacas como a Baía Maya, na Tailândia, precisaram ser fechadas para se recuperar de anos de agressão turística. Sítios arqueológicos como Machu Picchu impõem circuitos rígidos para preservar suas milenares estruturas. A poluição sonora e visual, a degradação de ecossistemas frágeis e a sobrecarga de recursos naturais são a face mais sombria dessa busca incessante por recordes de visitantes. O paraíso que buscamos ver corre o risco de ser destruído pelo próprio ato de visitá-lo.
Diante desse cenário, cidades ao redor do mundo têm buscado soluções, muitas vezes desesperadas. Taxas de visitação, restrições a cruzeiros, proibição de novos hotéis e até o cancelamento de festivais, como o das cerejeiras em Fujiyoshida, no Japão, são reflexos de uma tentativa de reequilibrar a balança. Algumas medidas mostram resultados promissores, como a recuperação da Baía Maya ou a queda da poluição em Veneza após restrições a navios. Contudo, outras parecem apenas empurrar o problema para o lado, como os aluguéis de temporada de Nova York migrando para cidades vizinhas.
No Brasil, embora ainda não alcancemos o volume de destinos como Istambul, não estamos imunes. João Tasso, da UnB, nos lembra que o overtourism deve ser medido qualitativamente. Cidades litorâneas no verão, Gramado ou Tiradentes já sentem a sobrecarga de infraestrutura e os impactos sociais. A “péssima gestão pública do turismo” no país, como aponta Mariana Aldrigui, da USP, é um fator crucial. Nosso foco em números brutos, em vez de uma visão estratégica e sustentável, ameaça replicar os erros globais em um país de vasta diversidade natural e cultural.
A verdadeira questão é política e de valores. Enquanto a métrica de sucesso da Organização Mundial do Turismo e dos governos locais for puramente o número de visitantes e a receita gerada, os problemas persistirão. É imperativo que se mude o paradigma. O propósito do turismo, como bem salienta Tasso, deve estar atrelado ao desenvolvimento humano e sustentável, à distribuição equitativa de recursos e ao respeito pelos limites dos ecossistemas e das comunidades locais.
Precisamos aprender com modelos como o Quênia, a Tanzânia e Ruanda, que focam em um turismo de maior valor agregado e permanência, protegendo suas paisagens e fauna. Precisamos valorizar e divulgar nossos destinos alternativos, como fez Civita di Bagnoregio, na Itália, ao sair do abandono para se tornar um exemplo de resiliência. Não se trata de proibir o direito de viajar, mas de repensar a responsabilidade implícita nesse privilégio. O turismo pode e deve ser uma ferramenta de prosperidade, mas apenas se for gerido com inteligência, empatia e uma visão de longo prazo que priorize a vida sobre o lucro a qualquer custo.
Afinal, de que adianta visitar um lugar “instagramável” se ele já não pulsa com a vida genuína de seus habitantes e se seus ecossistemas estão à beira do colapso? É tempo de uma reflexão profunda e de ações coordenadas para garantir que a beleza do mundo possa ser desfrutada por todos, hoje e pelas futuras gerações, sem que a própria busca pela experiência se torne a sua maior ameaça.
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