Titulação de terra quilombola no Marajó é inédita, celebram lideranças

A terra, em sua essência, não é apenas um pedaço de chão geográfico, mas o alicerce sobre o qual se edifica a dignidade humana. Quando Carlene Printes correu em direção ao palco, durante o encontro de mulheres quilombolas no Distrito Federal em junho de 2026, ela não celebrava apenas um documento administrativo entregue pelo presidente Lula. Celebrava a interrupção de um ciclo de invisibilidade que, durante gerações, manteve comunidades sob a constante ameaça da usurpação. A titulação inédita de territórios no Marajó surge como um divisor de águas, transformando um desejo ancestral em um direito tangível que, finalmente, começa a ser reconhecido pelo Estado.

O relato de Hilário Moraes, da comunidade de Santa Luzia, nos recorda que o território é também um campo de batalha. Onde o olhar desatento enxerga apenas vegetação, o quilombola enxerga um laboratório vivo de preservação e a herança de uma resistência que sobreviveu à pressão de madeireiros e grileiros. A segurança jurídica que a titulação proporciona não é um privilégio, mas o mínimo necessário para que essas famílias possam existir sem o medo constante do despejo ou da exploração predatória. Trata-se de uma reparação histórica que, embora tardia, reafirma o valor da agricultura familiar como sentinela do bioma amazônico.

Refletir sobre esse momento é compreender que a luta das comunidades tradicionais é, na verdade, uma luta por um modelo de civilização mais equilibrado. Ao ouvirmos lideranças como Adriana Ferreira da Silva, que, ao receber o título para a comunidade de Invernada dos Negros, reivindicou o lugar da mulher no mundo, percebemos que a regularização fundiária é o ponto de partida para o exercício pleno da cidadania. Não é apenas sobre hectares de terra ou metragens, mas sobre garantir que o futuro desses povos não seja mais moldado pelo trauma das perdas, mas pela autonomia de definir seus próprios caminhos.

Os novos decretos e o anúncio de relatórios técnicos de identificação em diversas partes do país, como em Goiás, Piauí ou Santa Catarina, revelam que o reconhecimento da identidade negra e camponesa passa, obrigatoriamente, pelo reconhecimento do solo. A gestão pública, ao avançar com esses processos, reconhece que a história do Brasil não foi escrita apenas nos grandes centros, mas no esforço silencioso daqueles que mantiveram a floresta em pé. A terra não é um ativo de mercado, é um patrimônio de vida. Enquanto esses títulos são entregues, o país reafirma sua promessa de proteger aqueles que, há séculos, cuidam do que é nosso, garantindo que o direito de permanecer em seu lugar de origem seja, finalmente, inviolável.

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