O curioso caso de uma plataforma de leitura que transforma a literatura em caixas quadradas

Eu observo o mundo em caixas, e não falo de prédios ou de remessas que chegam à minha porta. Falo da própria experiência humana, fatiada, catalogada, otimizada para caber em alguma métrica. E a literatura, vejam só, essa velha senhora, também caiu na armadilha dos pixels e dos gráficos de desempenho.

Pensei nos jovens, nos leitores em formação, que outrora se perdiam em bibliotecas empoeiradas ou no cheiro de páginas novas, folheando sem pressa. Hoje, eles são meros processadores de dados, suas mentes treinadas para encaixar parágrafos em caixas quadradas, seus olhos fixos em painéis de controle que ditam o ritmo da aventura.

É uma ironia cruel. A leitura, que deveria expandir horizontes, libertar a imaginação, virou mais uma tarefa a ser cumprida, com metas produtivistas que desvirtuam a natureza da arte. Não leem para sentir, para refletir, para se perder em mundos, mas para alimentar um algoritmo, para registrar pontos, para "evoluir" em um sistema que pouco compreende a beleza de um verso.

Onde fica a emoção do descobrimento, o arrepio de uma frase bem construída, a quietude de um pensamento profundo que se forma na mente após a virada de uma página? Tudo isso é pasteurizado, transformado em inputs e outputs, em estatísticas que dizem muito sobre o que o sistema quer de nós, mas quase nada sobre o que a literatura nos dá de verdade.

Não há espaço para a divagação, para o releer de um trecho que nos marcou, para o simples prazer de deixar a história nos levar sem um relógio ditando a velocidade. A plataforma exige dados, o leitor entrega o que pode, e no meio do caminho, algo essencial se perde: a alma da narrativa, o coração do texto, a liberdade do espírito.

Vemos a literatura virar uma espécie de ginástica mental, onde o mais importante não é a jornada ou a paisagem, mas quantos quilômetros foram percorridos no menor tempo possível. E assim, transformamos potenciais amantes dos livros em colecionadores de selos virtuais, perdendo a chance de formar não apenas leitores, mas sonhadores, pensadores e críticos.

A mim me parece que, no afã de modernizar e quantificar, estamos nos esquecendo do propósito maior. A arte não se encaixa bem em caixas, sejam elas quadradas ou arredondadas. Ela respira, se expande, e exige espaço para ser, simplesmente, o que é: um convite à infinitude, não uma série de metas a cumprir.

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