O lançamento do Plano emergencial para proteção às mulheres quilombolas defensoras dos direitos humanos, um documento denso com 85 páginas, não é apenas um protocolo burocrático, mas um grito de sobrevivência que ecoou no Gama durante o encontro nacional das comunidades. Ao observar quinhentas mulheres reunidas para celebrar três décadas de articulação da Conaq, percebemos que o território não é apenas solo, é a própria pele de quem o habita e o defende contra a sanha do capital e da degradação ambiental. Existe uma urgência intrínseca quando essas lideranças demandam proteções coletivas, revelando que a falha nas políticas de segurança é uma ferida aberta na nossa democracia.
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A exibição do documentário Cafuné traz à tona uma realidade visceral, onde a memória de figuras como Mãe Bernadete, tragicamente ceifada em 2023, serve como um lembrete constante da fragilidade que ronda as guardiãs dos biomas. Selma Dealdina, ao articular esse plano emergencial, confronta a sociedade com o fato de que o conflito agrário é, em última instância, uma violência de gênero e raça. Não estamos falando de um ativismo distante, mas da preservação de saberes ancestrais que, se extintos pela ganância ou pelo descaso, levarão consigo a última esperança de um equilíbrio climático possível para o país.
É preciso notar a sabedoria contida na fala da jornalista Maria Júlia Coutinho ao sugerir que o quilombo é um espaço de alegria estratégica. Essa alegria não se traduz como um status quo de passividade, mas como uma força de resistência criativa que impulsiona a transformação política. Quando estas mulheres — agricultoras, raizeiras e parteiras — reivindicam justiça climática, elas estão na verdade propondo uma nova ética de cuidado com a terra, um modelo que o restante do mundo, mergulhado em crises sistêmicas, deveria observar com profunda humildade.
A força política dessas lideranças, como Sandra Braga e Cida Souza demonstram, reside na capacidade de transmutar a dor do extermínio em um projeto de futuro. Ao exigir infraestrutura e respostas rápidas para os riscos que atravessam, estas mulheres não pedem favores, elas cobram uma reparação histórica que o Estado brasileiro, ainda hoje, insiste em protelar. A eficácia do plano apresentado depende de uma escuta ativa que ultrapasse as páginas impressas, reconhecendo que a proteção das guardiãs é, em última análise, a proteção do futuro comum de toda a nação.
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