A 24ª Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais, ocorrida recentemente em São Paulo, não foi apenas uma manifestação política; foi um lembrete pulsante de que a democracia brasileira ainda carece de uma anatomia completa da justiça. Quando grupos como a Coletiva da Visibilidade Lésbica e a Rede Nacional Candaces ocupam o espaço público, eles não buscam apenas visibilidade, mas a insurgência contra um silenciamento estrutural. A presença dessas mulheres nas ruas é a prova de que a sobrevivência é, em si, um ato de resistência radical.
O coração do protesto deste ano batia com a memória de Luana Barbosa dos Reis, cujo martírio completa uma década de um vazio jurídico ensurdecedor. Ao evocar a violência policial que vitimou uma mulher negra, lésbica e periférica, o movimento não apenas reclama por justiça, mas expõe como o braço do Estado frequentemente se torna um algoz daquelas que deveria proteger. A falha em responsabilizar os agentes que a espancaram até a morte após uma revista irregular é a tradução mais cruel da impunidade, revelando que para certas vidas, a lei é apenas uma sugestão distante e não um garantidor de direitos.
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Refletir sobre a trajetória de figuras como Helena Silva e Thais Souza é entender que o preconceito, muitas vezes mascarado sob a égide da família tradicional, é uma barreira que se desmancha apenas diante da persistência individual. Enquanto a sociedade insiste em medir o valor de um indivíduo por sua adequação a normas obsoletas, a realidade cotidiana de lésbicas e bissexuais é atravessada por uma série de negligências, desde a falta de preparo clínico em consultórios até o assédio em espaços que deveriam ser acolhedores. Não se trata apenas de preferência sexual, mas da luta pelo direito fundamental de existir sem ser lida como um erro ou uma transgressão a ser corrigida.
A metáfora do unicórnio, utilizada para descrever a invisibilidade de pessoas bissexuais, ilustra perfeitamente o desdém com que a sociedade trata a fluidez da identidade. Quando o mundo exige rótulos fixos, a negação do outro torna-se um mecanismo de defesa coletiva contra a complexidade humana. A caminhada em São Paulo, portanto, é um grito que ecoa para além do asfalto: é uma convocação para que a alteridade deixe de ser vista como ameaça e passe a ser reconhecida como um componente indissociável da dignidade humana.
Enquanto houver uma década de luto sem uma sentença, enquanto houver consultórios médicos que ignoram a subjetividade de suas pacientes e enquanto a política brasileira for tensionada por discursos que buscam reprimir a diversidade, o protesto nas ruas permanecerá como o termômetro da nossa falência ética. A luta por justiça não é um favor concedido pelo Estado, mas uma exigência civilizatória que só será atendida quando o medo de ser quem se é for finalmente substituído pela liberdade de existir em sua plenitude.
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