Governo lança campanha de visibilidade e defesa dos direitos LGBTQIA+

Caminhar pelo Vale do Anhangabaú nesta quinta-feira é sentir que a cidade, por um breve momento, resolveu vestir as suas cores mais urgentes. Em meio ao concreto cinzento do centro paulistano, a 25ª Feira Cultural da Diversidade e Empreendedorismo não é apenas um evento, mas um lembrete pulsante de que a sobrevivência é, em si, um ato político. É aqui que o governo federal escolheu lançar a campanha O Brasil é de Todas as Cores: Para Todas as Pessoas, tentando traduzir em números e políticas públicas uma realidade que muitas vezes só ganha contornos de estatística quando a tragédia bate à porta.

Não se trata apenas de um lançamento protocolar, mas de um balanço necessário sobre o peso da reconstrução. Symmy Larrat, secretária nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, descreve o momento com a precisão de quem conhece o terreno: é preciso recuperar o fôlego após anos de desmonte, levando o apoio para muito além da bolha dos grandes centros urbanos. Quando falamos de mais de 60 milhões de reais investidos desde 2023, estamos falando de vidas que encontraram refúgio em casas de acolhimento e de pessoas que, através do programa Empodera+, começaram a vislumbrar uma autonomia econômica antes negada pela marginalização.

A atmosfera da feira carrega uma ironia cortante. Enquanto expositores e artistas celebram a existência e a resistência, o coordenador Heitor Werneck aponta para uma realidade que insiste em se manter silenciosa: a dificuldade crescente de patrocínio. É um paradoxo observar o orgulho vibrante num evento que, ao mesmo tempo, precisa mendigar o básico para existir, mesmo ocupando quase a totalidade da rede hoteleira de uma metrópole que lucra com a diversidade, mas frequentemente vira as costas quando a conta do evento chega. É a resistência que precisa ser, ao mesmo tempo, a própria financiadora de sua visibilidade.

Para jovens como Fabrício Florencio, de 23 anos, o Vale do Anhangabaú é um refúgio de pertencimento. É onde o corpo a corpo mencionado pela secretária se torna troca real entre semelhantes que buscam o direito elementar de existir. A arte aqui funciona como uma engrenagem de sobrevivência, um preparativo para a grande caminhada que tomará a Avenida Paulista no próximo domingo. Com o tema celebrativo dos 30 anos da Parada, o chamado para o voto e para a ocupação das ruas soa como um alerta: a democracia é um músculo que precisa ser exercitado no asfalto.

Seguimos na marcha, observando que cada direito conquistado é uma vitória construída sobre o terreno movediço do ódio. Enquanto a música de MC Trans encerra o dia com o peso simbólico de um cachê doado em nome da continuidade da luta, fica claro que a rede protetiva construída pelo Estado tem, sim, um rosto e um destino. O desafio, daqui para frente, será garantir que as cores da campanha não se diluam diante da escassez orçamentária, transformando, de uma vez por todas, o que ainda é uma demanda urgente em uma política de Estado perene e intocável.

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