Começa nesta sexta-feira (12) e vai até domingo (14) o Festival de Cinema Latino-Americano de Alter do Chão, que acontece em Santarém (PA) e na aldeia Borari, em Alter do Chão, distrito turístico do município.
O evento tem foco no tema Cinema das Juventudes: Novas Perspectivas, Urgências e Caminhos para o Audiovisual. O filme-documentário Refúgio, do premiado diretor Rafael Duarte, será exibido na abertura do festival no dia 12 de junho, às 18h30, em frente ao Centro Cultural João Fona, em Santarém. O filme conta a história de resistência e resiliência do maior quilombo oficialmente reconhecido no Brasil — Cachoeira Porteira, em Oriximiná — retratando a luta para preservar sua identidade.
O coordenador-geral do festival, Rafael Ribeiro, fala da expectativa para o evento.
"A expectativa para o festival, todos os anos em que nós realizamos, é sempre muito positiva, de uma receptividade ímpar por parte da aldeia Borari, em Alter do Chão, das comunidades ao entorno, de todo esse ecossistema criativo que movimenta a cultura, que movimenta a arte, que movimenta em especial o audiovisual aqui na região oeste do Pará. A gente tem muitos desafios, no que diz respeito à curadoria dos filmes, que a gente leva muito a sério essa seleção, essa análise, principalmente compreendendo que esse ano a gente traz uma temática específica."
O CineAlter contará com quatro mostras: Mostra Amazonas, dedicada a longas-metragens latino-americanos; Mostra Tapajós, voltada a produções paraenses sobre vivências juvenis amazônicas; Mostra Arapiuns, destinada a obras experimentais e primeiros filmes de jovens realizadores; e o CineAlterzinho, com programação voltada ao público infantil e infanto-juvenil.
Os vencedores das oito categorias competitivas receberão o Troféu Muiraquitã, símbolo ancestral amazônico confeccionado por artistas da região, representando resistência, memória e conexão entre povos e territórios. Rafael Ribeiro destaca os investimentos realizados através de políticas públicas.
"Políticas públicas como a Lei Paulo Gustavo, por exemplo, foram muito importantes para o fomento ao audiovisual aqui na nossa região e em todo o país. Há muitas produções de qualidade, muitos filmes importantes pra gente reconhecer quem é enquanto cidadãos amazônicos, enquanto cidadãos brasileiros e enquanto cidadãos latinos. Então é com muita alegria que a gente está nessa reta final de produção para a entrega do nosso querido e amado CineAlter."
![]()
Ao observar o florescer do Festival de Cinema Latino-Americano de Alter do Chão, compreendemos que o cinema, em sua essência, não é apenas um registro de imagens, mas um zeitgeist que captura as urgências de um povo. Quando o CineAlter elege a juventude como protagonista de suas novas perspectivas, ele não apenas abre espaço para telas, mas convida a uma reflexão sobre como o audiovisual se torna um espelho da resiliência amazônica. É nessa intersecção entre o local e o global que a identidade deixa de ser um conceito estático para se transformar em um movimento pulsante de resistência.
O fato de as exibições ecoarem em espaços como a aldeia Borari, unindo a força do território ancestral às lentes contemporâneas, revela a maturidade de uma política cultural que entende a arte como um direito e não como um privilégio. A menção de produções que retratam quilombos, como a obra que abre o festival, nos lembra que a memória é o solo fértil de qualquer criação. Ao reconhecer que o fomento público, através de leis de incentivo, é o motor desse ecossistema, validamos a importância de um Estado que entende o cinema como um exercício indispensável de cidadania e soberania cultural.
Por fim, a premiação através do Troféu Muiraquitã é, por si só, um ato de coragem simbólica. Ela conecta as gerações, unindo os jovens realizadores das mostras experimentais aos ancestrais que esculpiram a história da região. A celebração que ocorre entre Santarém e o distrito de Alter do Chão vai além da tela de projeção; trata-se de um manifesto coletivo onde ser latino-americano significa, antes de tudo, compreender que a nossa imagem é o território que ocupamos. É um convite para que, ao final desses três dias, levemos conosco não apenas as lembranças dos filmes, mas a certeza de que a voz das juventudes amazônicas é a narrativa que moldará o futuro do nosso continente.
0 Comentários