A Avenida Paulista, palco recorrente das tensões e esperanças políticas da América Latina, viu neste domingo um eco do que ocorre além de suas fronteiras. O ato em solidariedade ao povo boliviano não é apenas uma demonstração de empatia transfronteiriça; é um termômetro de uma região que vive um momento de trânsito político agudo e perigoso. Quando bolivianos residentes no Brasil se reúnem em frente ao Masp para exigir a renúncia de Rodrigo Paz, não estamos observando apenas uma questão de soberania nacional, mas o colapso de um pacto social que, até pouco tempo, sustentava o cotidiano daquelas famílias.

O estopim do caos boliviano, que hoje gera desabastecimento e repressão, revela uma lição cruel sobre a política econômica contemporânea: a transição entre modelos ideológicos opostos frequentemente atropela as necessidades básicas da população antes mesmo de consolidar qualquer agenda de modernização. A retirada de subsídios à gasolina e a guinada nas políticas agrárias em favor do grande capital não são apenas números em uma planilha orçamentária. Para o cidadão comum, traduzem-se em pratos vazios, postos de combustíveis secos e uma insegurança existencial que as forças de segurança, por mais que recebam poderes de exceção, não conseguem silenciar.

É necessário refletir sobre o papel do Estado quando este opta por utilizar as Forças Armadas para gerir crises de gestão pública. A decisão do governo Paz de recorrer a uma lei de exceção para conter a insatisfação social é um sintoma claro de fragilidade institucional. Governos que precisam de baionetas para justificar suas reformas econômicas já perderam, essencialmente, a legitimidade política necessária para governar. O uso da força é a confissão de que o diálogo com os setores produtivos — camponeses, mineiros e professores — foi substituído pela imposição tecnocrática, uma prática que historicamente apenas radicaliza as bases sociais.

A analogia feita pelos manifestantes em São Paulo, ao dizerem que a luta da Bolívia é também a luta do Brasil, não deve ser lida apenas como um slogan de protesto. Ela aponta para uma angústia comum: a percepção de que, independentemente da orientação do governo de turno, a população de baixa renda é quem sempre paga a fatura da instabilidade. Estamos presenciando um esgotamento das democracias representativas que não conseguem mais conciliar as exigências do mercado globalizado com a subsistência básica de seus povos.

O que resta, ao observarmos o cenário boliviano a partir da janela paulistana, é a incerteza. A longo prazo, a repressão pode garantir uma paz efêmera, mas o preço cobrado será a corrosão permanente da confiança no Estado. Sem o restabelecimento de um canal de diálogo real, que considere o impacto das leis fundiárias e o custo de vida nas comunidades periféricas, a Bolívia corre o risco de entrar em um ciclo de instabilidade que afetará todo o continente. A história nos ensina que, quando o direito à dignidade é negligenciado em nome de uma promessa de progresso excludente, o protesto deixa de ser um evento e passa a ser o novo modo de vida.