Fascismo na França, o grande mal-entendido

A iminente eleição presidencial de 2027 na França parece-me um ponto de inflexão mais do que uma mera alternância de poder. O que está em jogo, na verdade, é uma ruptura profunda com os paradigmas estabelecidos, um terremoto político cujas réplicas sentir-se-ão muito além das fronteiras francesas. A narrativa dominante, veiculada por parte da esquerda, aponta para a extrema direita como a única ameaça real, mobilizando a sociedade contra o espectro do fascismo. Contudo, essa fixação me faz questionar se não estamos, nós, analistas e cidadãos, negligenciando uma outra hipótese, talvez mais sutil, mas igualmente corrosiva.

Essa polarização, que reduz o cenário a um maniqueísmo entre a "resistência antifascista" e a "ascensão da tirania", pode estar a cegar-nos para as verdadeiras dinâmicas de poder e as transformações sociais em curso. O termo "fascismo", carregado de um peso histórico indizível, é frequentemente utilizado como um rótulo genérico para qualquer movimento de direita mais radical. Embora a vigilância seja crucial, o uso indiscriminado pode diluir seu significado e desviar a atenção de outras formas de autoritarismo ou desmantelamento democrático que não se encaixam perfeitamente nos moldes do século passado.

Qual seria, então, essa hipótese negligenciada? Penso que a verdadeira ruptura pode vir de um esvaziamento silencioso da democracia, não por um golpe de Estado ostensivo, mas por uma erosão gradual das instituições, uma despolitização da esfera pública e uma ascensão de lógicas tecnocráticas que relegam a participação cidadã a um segundo plano. É a transformação de um sistema representativo em um sistema de gestão, onde as complexidades socioeconômicas são tratadas como problemas técnicos, não como questões políticas que exigem debate e escolha coletiva.

O que isso muda na vida do cidadão comum? Muito. Ao focar-se exclusivamente na ameaça externa da extrema direita, a sociedade e a própria esquerda podem falhar em perceber que as condições para essa outra ruptura estão sendo gestadas internamente. A desilusão com os partidos tradicionais, a sensação de que as preocupações quotidianas não são endereçadas, a crescente desigualdade e a precarização do trabalho podem levar a um desencanto profundo com o próprio sistema democrático, tornando-o vulnerável a soluções simplistas ou a uma inércia que favorece a concentração de poder.

As consequências a longo prazo dessa miopia política são preocupantes. Se a resposta à complexidade política é sempre a redução a um único inimigo, perdemos a capacidade de diagnosticar problemas mais intrínsecos à nossa arquitetura social e econômica. Ignorar a "outra hipótese" significa não preparar a sociedade para enfrentar desafios que transcendem a dicotomia esquerda-direita, como a crise climática, a revolução tecnológica e as novas formas de organização do trabalho e da vida. A polarização excessiva nos impede de construir pontes e de encontrar soluções inovadoras para um futuro que se anuncia cada vez mais incerto.

Portanto, acredito que a eleição de 2027 não exige apenas uma mobilização contra o que é visto como um "mal evidente", mas uma introspecção profunda sobre o que realmente estamos construindo (ou desconstruindo) como sociedade. Precisamos questionar as premissas, ir além das palavras de ordem e entender os anseios e frustrações que alimentam tanto a ascensão de movimentos radicais quanto a apatia generalizada. A verdadeira ruptura pode não ser um evento barulhento, mas um lento silêncio que esvazia a essência do que entendemos por república e democracia.

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