
A menção ao legado de Luiz Carlos Barreto, carinhosamente conhecido como Barretão, transcende a simples homenagem póstuma para se converter num catalisador de uma discussão mais ampla e fundamental para o nosso país: o papel e a percepção das leis de incentivo à cultura. O que Barretão nos deixou não foi apenas um acervo cinematográfico memorável, mas uma prova viva da capacidade de uma nação em fomentar sua própria identidade e economia através de mecanismos de apoio que, muitas vezes, são equivocadamente reduzidos a meros privilégios fiscais.
Nós, como sociedade, somos frequentemente induzidos a enxergar as leis de incentivo – como a Lei Rouanet, por exemplo – unicamente pela ótica da "renúncia fiscal". Essa narrativa simplista obscurece a complexidade e o impacto multifacetado dessas políticas. Não se trata de uma benesse, mas sim de um investimento estratégico. Quando uma empresa direciona parte de seu imposto para um projeto cultural aprovado, ela não está simplesmente "deixando de pagar", mas sim realocando recursos para um setor que gera valor, empregos e movimenta uma cadeia produtiva vasta e diversificada.
Pensemos no efeito dominó: a produção de um filme, uma peça de teatro ou um festival de música não envolve apenas artistas e produtores. Demanda técnicos de som, iluminação, cenógrafos, figurinistas, motoristas, cozinheiros, pessoal de segurança, contadores, advogados, e uma infinidade de outros profissionais. Cada real incentivado tem o potencial de gerar um efeito multiplicador na economia local, impulsionando a demanda por bens e serviços e, consequentemente, aumentando a arrecadação de impostos em outras frentes. É um ciclo virtuoso que injeta vida não apenas na arte, mas em diversos segmentos do mercado de trabalho.
O que isso muda na vida do cidadão comum? Muda a paisagem cultural disponível. Sem esses incentivos, a diversidade de produções artísticas seria drasticamente reduzida, com a predominância de conteúdos estrangeiros ou de baixo custo, sem a profundidade e a relevância que a produção nacional pode oferecer. As leis de incentivo permitem que histórias brasileiras sejam contadas por brasileiros, fortalecendo nossa identidade cultural e oferecendo ao público acesso a obras que refletem suas próprias realidades e aspirações.
As consequências a longo prazo da desvalorização ou desmonte dessas políticas são severas. Podemos assistir a uma gradual desertificação do nosso cenário cultural, com a perda de talentos para outros mercados e a diminuição da capacidade do Brasil de se expressar artisticamente e de projetar sua imagem no exterior. O legado de Barretão nos mostra que a cultura é também um pilar da economia e da soberania de um país, e não um luxo dispensável. Ele viveu e demonstrou que o fomento à cultura é um motor de desenvolvimento social e econômico, com retorno tangível para toda a sociedade.
Nossa reflexão, portanto, deve ir além da contabilidade superficial. Devemos questionar quem ganha e quem perde com a demonização das leis de incentivo. Os críticos focam nos supostos desvios ou na concentração de recursos, que são problemas de fiscalização e gestão, não da essência da política em si. A tarefa urgente é aprimorar a transparência e a efetividade, garantindo que o investimento público na cultura seja amplamente distribuído e fiscalizado, mas jamais abandonado.
O verdadeiro legado de Barretão é um convite para enxergarmos que as leis de incentivo são, em sua essência, instrumentos de política pública que visam construir um país mais rico em múltiplos sentidos: economicamente vibrante, socialmente inclusivo e culturalmente expressivo. Ignorar essa dimensão é condenar-nos a um futuro sem cor, sem voz e sem a riqueza da nossa própria narrativa.
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