Há certas verdades que o tempo, com toda a sua pretensa capacidade de cura e esquecimento, insiste em não apagar. Observo a trajetória do escritor e violoncelista Carlos Márcio, agraciado com o Prêmio Resistência 2025, e sua obra Racismo, Constante como o Tempo, e sou levado a uma reflexão profunda sobre a permanência das cicatrizes que moldam nossa sociedade.
Sua pesquisa, que atravessa quatro séculos, não é um mero resgate do passado, mas uma instigante provocação à nossa compreensão de presente. Ele nos força a encarar uma realidade incômoda: a ideia de que o racismo é uma estrutura viva da sociedade, pulsante e adaptável, e não uma sombra distante de eras já findas.
Nós, por vezes, nos iludimos com a linearidade histórica, acreditando que a passagem dos anos, das gerações, das legislações, seria suficiente para diluir as marcas de uma chaga tão profunda quanto a escravidão. Todavia, a constância do racismo que Márcio tão eloquentemente articula em seu trabalho nos lembra que essa é uma visão simplista e perigosa.
A obra vencedora do Prêmio Resistência 2025 nos desafia a olhar para além dos símbolos e a reconhecer como o preconceito se metamorfoseia, encontrando novos mecanismos para perpetuar desigualdades. É um convite à introspecção sobre o que significa, de fato, erradicar uma mentalidade que se entranhou nas fundações da civilização.
O autor, com sua sensibilidade de artista e o rigor de quem perscruta a história, desvela a intrincada teia que se renova, assumindo novas faces, mas mantendo a essência de uma opressão sistêmica. Não se trata de um lamento pelo que foi, mas de um alerta para o que incessantemente é, e para o que ainda podemos transformar.
Essa reflexão nos impele a considerar que a verdadeira resistência reside em reconhecer que a luta pela equidade não se encerra em marcos históricos ou em meros reconhecimentos formais. Ela exige uma vigilância incessante, uma desconstrução diária das narrativas que ainda permitem a persistência do racismo, constante como o tempo, em todas as suas manifestações.
0 Comentários