A terra do carnaval também abre espaço no calendário para os festejos juninos. A Prefeitura de Olinda inicia a programação para o São João neste fim de semana. Entre os dias 12 de junho e 11 de julho, cerca de 60 atrações culturais irão movimentar a cidade Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade.

Olinda é uma cidade que insiste em não se deixar definir por um único tempo cronológico. Enquanto o mundo se volta para a euforia globalizada da Copa do Mundo, a urbe pernambucana encontra fôlego para sobrepor o calor da disputa esportiva com o rastro da pólvora e do milho, revelando que a nossa identidade não é uma peça estática, mas um tecido vivo e em constante reconfiguração. A transição do frevo para o forró não é apenas uma mudança de compasso nas ruas do Sítio Histórico, mas a afirmação de que a memória coletiva é o que verdadeiramente nos mantém ancorados diante das mudanças efêmeras do presente.

Ao observarmos a Frevodrilha ocupando os Quatro Cantos, percebemos que o hibridismo é a marca registrada de um povo que recusa o isolamento das tradições. O encontro do passo acelerado com a temática junina sugere que o sagrado e o profano, o passado colonial e a vivacidade contemporânea, podem coexistir sem atritos. É uma coreografia da resiliência, onde o Boi da Macuca ou a presença de um gigante como o boneco de Gonzagão em plena praça pública, nos lembram que a cultura não reside apenas em museus, mas no suor de quem dança sob o sol do meio-dia ou sob a luz dos fogos de artifício.

O que se desenha este ano, com uma programação que abraça desde a erudição da Banda Sinfônica até o clamor ancestral do coco de roda, é um espelho das nossas próprias contradições. Vivemos em uma época onde o instantâneo tenta ditar o ritmo da existência, mas Olinda, em sua teimosia geográfica, nos força a desacelerar para entender que a cultura é o nosso verdadeiro lastro. O São João, neste contexto, deixa de ser apenas uma festa sazonal para se converter em um ato de resistência simbólica contra o esquecimento das nossas raízes mais profundas.

Ao circularmos entre os arraiais e a Arena Olinda, montada para conciliar a paixão pelo futebol com a celebração do forró, somos convidados a refletir sobre o que resta quando as luzes dos palcos se apagam. O que permanece são as redes de afetos tecidas nas comunidades de Peixinhos e Ouro Preto, e a certeza de que a cultura pernambucana é um organismo que respira através de seus próprios mestres. Celebrar o São João ali não é apenas seguir um calendário, mas manter acesa uma fogueira cujas chamas, há séculos, iluminam os becos de uma história que, embora antiga, teima em ser sempre nova.