Contagem manual de votos impressos, revisões, contestações... entenda a demora na apuração do nosso vizinho.
A longa espera pelo resultado das eleições no Peru, com a disputa acirrada entre Keiko Fujimori e Roberto Sánchez, transcende a mera questão burocrática. É um espelho complexo da fragilidade institucional, da vastidão geográfica e da própria alma de um país que, nos últimos anos, vivenciou uma
instabilidade política quase surreal. Quatro presidentes em cinco anos não é apenas um dado estatístico; é a tradução de uma nação à beira da exaustão cívica, onde cada voto, cada contagem e cada contestação se tornam atos de uma peça dramática que parece não ter fim.
O que nos é apresentado como um processo de apuração demorado é, na verdade, um mosaico de desafios. A dependência majoritária das cédulas de papel, manualmente contadas pelo Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE) e só então digitalizadas, nos remete a um tempo em que a tecnologia era uma promessa distante. Se pensarmos na Colômbia, que também usa papel mas agiliza sua contagem com sistemas digitais, percebemos que não é a celulose o problema, mas a ausência de uma modernização sistêmica que garanta celeridade e, paradoxalmente, mais transparência.
Entretanto, a problemática vai além dos métodos de contagem. O Peru é um país de contrastes monumentais, com sua geografia desafiadora que impõe verdadeiras odisseias logísticas para o transporte de urnas de regiões rurais e remotas. Rios caudalosos, montanhas imponentes e densas florestas exigem barcos e até animais de carga para garantir que cada voz, por mais isolada que esteja, seja ouvida. Some-se a isso a vasta diáspora peruana, com mais de um milhão de cidadãos no exterior, muitos ainda dependentes do voto físico e de longas viagens para que suas cédulas cheguem a Lima. É um esforço democrático que beira o heroísmo, mas também a ineficiência.
E quando as urnas finalmente chegam e os votos são contados, o processo está longe de terminar. A entrada em cena do Jurado Nacional de Eleições (JNE), o equivalente ao nosso Tribunal Superior Eleitoral, adiciona camadas de revisão e contestação. Inconsistências, divergências e a possibilidade de denúncias de fraude levam a audiências, recontagens e decisões que podem reverter cenários. No primeiro turno de 2026, mais de um milhão de votos foram submetidos a recontagens, um número que nos faz questionar a robustez dos procedimentos iniciais ou a fé nos resultados preliminares.
Para o cidadão comum, essa morosidade prolonga a incerteza e alimenta a desconfiança. Como planejar o futuro, investir, ou mesmo respirar aliviado, quando a liderança do país permanece em um limbo por semanas? A memória recente do Peru, com presidentes como Pedro Castillo sendo alvo de impeachment e subsequentes chefes de estado – como Dina Boluarte e José Jeri – também sucumbindo a crises e acusações, transforma cada eleição em um teste de estresse contínuo para a democracia. A demora na apuração torna-se um símbolo dessa instabilidade crônica, erodindo a já frágil confiança popular nas instituições.
A longo prazo, as consequências podem ser profundas. Uma nação que não consegue definir seus líderes rapidamente, por mais justificados que sejam os processos, corre o risco de desestimular a participação política, fomentar a polarização e abrir caminho para narrativas que questionam a legitimidade do sistema. A lentidão, em um mundo que preza pela agilidade e informação instantânea, pode ser interpretada não apenas como burocracia, mas como uma patologia democrática, afastando investimentos e aprofundando divisões sociais. O Peru, nesse sentido, nos convida a uma reflexão sobre o preço da exaustão cívica e a resiliência de um povo.
Nós, que experimentamos a agilidade das urnas eletrônicas no Brasil, observamos a saga peruana com uma mistura de admiração pelo esforço e preocupação com suas implicações. A democracia é um exercício contínuo de aprimoramento, e o caso peruano é um lembrete vívido de que a garantia do voto e de sua correta apuração é fundamental para a saúde de qualquer nação, independentemente de sua complexidade geográfica ou de sua história recente. Que a resolução dessa contagem acirrada traga não apenas um novo presidente, mas um sopro de esperança e estabilidade para os irmãos peruanos.
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