
A contradição que se manifesta em Belo Horizonte, a partir da experiência do Festival Multiversos e do licenciamento cultural, é um espelho ampliado de um dilema profundo que assola o Brasil: um Estado que, com uma mão, busca fomentar a cultura, mas com a outra, ergue barreiras burocráticas intransponíveis, sobretudo para as comunidades periféricas. Esta não é apenas uma ineficiência administrativa; é um sintoma de uma desigualdade estrutural que permeia o direito à cidade e à expressão cultural.
O que presenciamos é uma dinâmica paradoxal. Políticas públicas de incentivo cultural evoluíram, com editais e fundos que prometem democratizar o acesso e a produção artística. Contudo, no momento em que a cultura popular e as iniciativas autônomas das periferias buscam ocupar o espaço público, elas se deparam com uma hidra burocrática. Esta burocracia, longe de ser um mero formalismo, atua como um mecanismo de filtragem social e cultural, perpetuando uma exclusão histórica.
Nós nos perguntamos: por que isso acontece? A resposta reside, em parte, na desconexão entre as esferas do fomento e da regulamentação. Enquanto uma busca impulsionar, a outra, muitas vezes, opera sob lógicas de controle, segurança e ordem pública que não dialogam com a fluidez e a espontaneidade da produção cultural comunitária. Há uma invisibilidade institucional da cultura que brota das ruas e das margens, que não se encaixa nos formulários padronizados nem nas exigências de um sistema feito para os grandes eventos, não para as pequenas e vibrantes manifestações cotidianas.
O impacto na vida do cidadão comum é devastador. Para quem vive na periferia, a cultura não é apenas entretenimento; é identidade, é pertencimento, é ferramenta de transformação social e econômica. Quando o grupo de hip-hop, o coletivo de teatro ou o artista plástico local são impedidos de exibir seu trabalho em sua própria comunidade por falta de um alvará ou licença, o que se perde não é apenas um evento. Perde-se a voz de uma comunidade, a oportunidade de gerar renda local e, acima de tudo, a reafirmação do direito fundamental de ocupar e ressignificar o espaço urbano.
As consequências a longo prazo são preocupantes. A insistência nessa barreira burocrática sufoca a diversidade cultural, homogeniza a produção artística e a relega aos espaços já estabelecidos e privilegiados. Cria-se uma segregação cultural onde o acesso à expressão e ao consumo de arte é condicionado não pelo talento ou pela relevância, mas pela capacidade de navegar um labirinto de papéis e exigências que são, para muitos, um idioma estrangeiro. Isso gera um esvaziamento da riqueza cultural que as periferias têm a oferecer, e a perpetuação de um ciclo de marginalização social e econômica.
Em minha análise, esta situação nos força a repensar o papel do Estado não apenas como um fomentador de cultura, mas como um facilitador democrático do acesso ao espaço público. A fluidez burocrática, historicamente negada às periferias, precisa ser construída a partir de uma compreensão profunda das realidades locais, com processos desburocratizados e sensíveis às particularidades de cada manifestação cultural. Somente assim poderemos verdadeiramente construir um país onde o direito de fazer e vivenciar a cultura seja universal e irrestrito, rompendo com as amarras de um sistema que, consciente ou inconscientemente, ainda filtra e exclui.
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