
Nós vivemos em um tempo de paradoxos assustadores. A cada avanço da consciência coletiva sobre as desigualdades de gênero e a urgência da proteção às mulheres, parece emergir, de forma quase visceral, uma contrarreação. Essa reação não se manifesta apenas na violência física explícita, mas assume formas mais insidiosas, travestidas de argumentação e até mesmo de saber. O que nos choca particularmente é quando essa barbárie se disfarça com o manto de uma disciplina que se propõe a desvendar o psiquismo humano, como a psicanálise.
A observação de que "quanto mais a revolta e a denúncia das feministas se afirmam em ações reivindicativas de proteção às mulheres, mais a barbárie das violências contra as mulheres parece reagir com nova força" não é mera constatação, mas um alerta grave. Ela expõe uma dinâmica de poder onde a voz feminina, ao se levantar, provoca um reflexo defensivo e agressivo em estruturas que se sentem ameaçadas. Este não é um fenômeno novo na história das lutas por direitos, mas a sua manifestação no campo do pensamento e da academia é particularmente perigosa.
Quando um "escrito misógino" surge em nome da psicanálise, ele não apenas propaga preconceito, mas o legitima. Ele oferece um verniz intelectual a ideias retrógradas, tornando-as mais difíceis de contestar para o cidadão comum, que pode não ter as ferramentas para discernir a apropriação indevida de conceitos complexos. Isso fragiliza a própria essência do conhecimento, transformando-o em arma para a manutenção de privilégios e a opressão.
A pergunta que se impõe é: por que isso acontece? A meu ver, essa é a manifestação de um recalque coletivo, uma resistência profunda à perda de uma ordem social há muito estabelecida, onde o masculino detinha o primado. A ascensão da voz feminina e a demanda por igualdade expõem rachaduras nessa estrutura, e a reação é uma tentativa desesperada de cimentá-las, mesmo que com a argamassa do preconceito travestido de teoria. É a hibris de quem acredita deter a chave da verdade, usando-a para distorcer a realidade em favor de uma visão de mundo excludente.
As consequências para a vida do cidadão comum são diretas e severas. Mulheres que buscam apoio ou compreensão em campos como a psicologia e a psicanálise podem se deparar com discursos que, ao invés de acolherem e elaborarem suas dores e experiências de opressão, as validam ou as explicam de forma a perpetuar seu sofrimento. Isso cria um ambiente de desconfiança generalizada e dificulta a busca por saúde mental e bem-estar, especialmente para as vítimas de violência de gênero.
A longo prazo, a permissividade com discursos dessa natureza em espaços de alta credibilidade pode normalizar a misoginia, fazendo-a permear o tecido social de maneira mais sutil e, por isso, mais difícil de combater. Ela mina os alicerces da empatia e do respeito mútuo, indispensáveis para a construção de uma sociedade mais justa. A ciência e o conhecimento não podem ser reféns de preconceitos velados, sob pena de perderem sua própria legitimidade e propósito.
É imperativo que a comunidade acadêmica e profissional, incluindo os conselhos de classe, se posicione de forma veemente contra essa deturpação. Não se trata de cercear o debate ou o pensamento crítico, mas de demarcar as fronteiras entre a análise séria e a mera apologética da opressão. O conhecimento deve ser um farol, não um disfarce para as sombras da barbárie. Nós precisamos exigir que os pilares do saber sejam espaços de libertação, e não de reprodução da violência.
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