Desmatamento cai no Brasil, e agora não é hora de enfraquecer o que funcionou

Relatório MapBiomas aponta que o desmatamento no Brasil caiu 20,6% em 2025. Mas um projeto de lei ameaça os avanços na fiscalização.

O Dia Mundial do Meio Ambiente, em junho de 2026, trouxe-nos uma notável inflexão em uma narrativa que parecia imutável. Pela primeira vez em anos, a brutalidade dos números do desmatamento no Brasil recuou significativamente, caindo 20,6% no último ano de 2025, conforme revelado pelo Relatório Anual do Desmatamento do MapBiomas. É um alento, um respiro em meio à densa fumaça que paira sobre nossas florestas, sugerindo que a esperança não é uma abstração distante.

Este declínio, o terceiro consecutivo, levou a área desmatada para abaixo de um milhão de hectares – um marco simbólico, se considerarmos que ainda estamos falando de quase um milhão de campos de futebol aniquilados em apenas doze meses. Contudo, essa melhora não é mero acaso. Ela é a prova viva de que a união entre a inteligência dos dados, a transparência pública e a ação incisiva dos órgãos de controle é capaz de reverter tendências. Vimos o percentual de ações de fiscalização saltar de 5% em 2019 para 65% em 2025, um salto que não pode ser ignorado.

Em um país de dimensões continentais como o nosso, a capacidade de "ver" é, antes de tudo, a capacidade de agir. A tecnologia de satélites, que nos permite monitorar em tempo quase real onde e como a supressão de vegetação nativa ocorre, tornou-se um olho onipresente, um instrumento crucial para a fiscalização. Ela não substitui o agente público, mas multiplica sua eficácia, permitindo que cada recurso humano seja direcionado com precisão cirúrgica, priorizando as áreas mais vulneráveis da Amazônia, Cerrado e Pantanal, que, apesar da queda, ainda concentram os maiores desafios.

Observamos uma redução em todos os biomas, com o Pantanal registrando a maior queda proporcional e a Amazônia um decréscimo de 23,5%. Ainda assim, o Cerrado, essa savana rica em biodiversidade, persiste como o bioma mais castigado, respondendo por mais da metade de todo o desmatamento nacional em 2025, com a região do Matopiba mantendo uma pressão avassaladora. Estes números nos lembram que a vitória é parcial e a vigilância deve ser constante, principalmente porque 99% da supressão está ligada à expansão agropecuária, um vetor complexo que exige diálogo e fiscalização contundente.

Diante desse cenário de avanços tão duramente conquistados, surge, então, uma sombra legislativa. A aprovação, pela Câmara dos Deputados, de um projeto de lei que visa restringir a adoção de medidas cautelares por órgãos ambientais, inclusive aquelas embasadas em monitoramento remoto, soa como um passo atrás, uma dissonância com a própria evidência que celebramos. Argumenta-se a necessidade de garantir o direito à defesa, um pilar fundamental da justiça, claro. Mas a defesa não pode vir às custas da paralisia diante do dano ambiental em curso.

Em crimes ambientais, especialmente o desmatamento, o tempo não é um luxo, mas uma variável crítica. Cada dia sem uma ação cautelar significa mais árvores derrubadas, mais solo exposto, mais rios assoreados, mais vida silvestre perdida. É como proibir o uso de radares para controlar a velocidade nas estradas sob o pretexto de garantir a defesa do motorista: a tecnologia apenas registra o fato objetivo, permitindo a interrupção do dano e, posteriormente, o devido processo legal para a contestação da autuação.

As imagens de satélite, quando validadas e cruzadas com outras informações, não são uma opinião; são um registro frio e objetivo da realidade. Elas fornecem a base para o embargo cautelar, uma ferramenta que existe precisamente para interromper a escalada da destruição enquanto o processo administrativo segue seu rito. Reduzir a capacidade do Estado de utilizar essas ferramentas é, no mínimo, um ato de miopia, que arrisca desmantelar o próprio sistema que nos permitiu celebrar a queda de 2025.

O desafio de transformar a redução de um ano em uma tendência duradoura é monumental e complexo. Ele exige o fortalecimento da atuação dos estados, a responsabilização efetiva dos infratores e o apoio irrestrito àqueles produtores que operam dentro da legalidade. Enfraquecer os instrumentos de fiscalização neste momento crucial seria como cegar o país em um campo minado. Ver rápido, agir a tempo: essa é a máxima que devemos proteger, se quisermos realmente estancar a perda da nossa inestimável vegetação nativa.

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